14/06/2018

Sessão Poema - Parte LXXIII [Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.]

Arte: "Outra Favela" - Rodrigo Guimarães.


São gatos, cachorros, carros e motos
A vizinha que lava louça a espera de algo, a espera de alguém.
Barulhos noturnos de uma periferia que insiste.
Insiste em existir, em viver.
Nunca existe a benção do silêncio.
Guardamos ele para nossos mortos.
Sempre movimento, planos entre vielas.
E o poeta em seu quarto escuro matuta uma salvação.
Sabe dos legais e ilegais.
Mas não degenerar dos seus.
Criminoso é o Estado.
Que se vende como uma puta barata aos senhores.
Donos de escravos assalariados.
Sucateia serviços, sucateia vidas.
Privatiza oportunidade, parcela sonhos em uma eterna dívida.
Políticas excludentes.
Não contemplam quem batalha duro para existir. 

“Nois” não quer só existir.
“Nois” quer viver.

Temos fome e não é só de comida.
Não é só de consumo, poder aquisitivo.
É de voz, de olhar, de cultura de um abraço.
Finalmente uma identidade brasileira.
Na periferia também tem seu lado bom.
A gente se olha, se sente.
O morro ao inverso.
Ele vem de baixo para cima.
Ladeiras, escadões.
Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.
 
Há precariedade nos acessos.
Distante das suas modernidades de bicho homem.
Homem do centro, do metrô, do asfalto.
Casas corretamente arquitetadas.
Descendentes de Europeus em suas Naus contemporâneas.
Taxando a nós de selvagens.
Por não (ter) como eles.
Culpando-nos por viver assim, por estar aqui. 
Mas índio/negro tem terra;
índio/negro tem cultura, 
índio/negro tem vida.
Tem história... resistência.

Somos a herança dos índios e negros mortos, explorados.
Que construíram essa terra.
A custa de muito suor, sangue, dor e lágrima.
Por eles viemos cobrar a indenização.
Por bem ou mal. 

Existe um lugar para nós.
E não podem nos limitar, nos subestimar, agredir.
Porque apesar do nome ser quebrada, somos inteiros.

Tais Medeiros. 

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