17/07/2018

Sessão Poema - II Versão [Falsos Santos.]

Matei o romantismo.
Abusei do desapego.
Entreguei-me a um mundo sem valores.
Os pudores foram exilados.
E o íntimo liberto.
A boca sedenta.
E o corpo voraz.
Não existem cobranças e nem julgamentos.
E os dedos em minha direção.
Não apontam nada.

Meu desejo rasga a pele.
Como se quisesse despir a alma.
Transcendendo.

Entendo o que poucos sabem.
O desespero não enlouquece, liberta.
A vida é quanto você goza.
E não quanto você tem.
Viver a sua própria filosofia.
Isso é para poucos.
Ousadia que não cabe aos fracos.
Os fracos buscam receitas para existir.
Os senhores de si...
Ahhh! Esses escrevem a própria história.

Existe mais valor e honra.
Em noites de boêmia.
Celebrando a sua vivência, a sua resistência, a vida.
Do que uma longa existência enterrado no tédio dos falsos santos.


Tais Medeiros.

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03/07/2018

Sessão Poema - Parte LXXIV [A sanidade que nunca habitou aqui.]


Imagem de internet - Sem créditos.
Está chegando a hora. 
Eu escuto os gritos dos mudos. 
Dos silenciados, dos desesperados. 
Pula, pula... 
Toda luta nos condena. 
A ser herói ou vilão. 
Não existe sempre glória. 
Um lado de ruínas. 
Dentro.
Outro de ilusões. 
Fora. 
Os que vieram para perder. 
Sempre. 
Nasceram do lodo e não dá lama. 
Subjugados. 
Vivos, mas abortados. 

Não importa o esforço, a crença, a disciplina. 
Minha mãe quanto mais reza, mais chora e não floresce a vida. 
Talvez a única coisa que funcione nesse hospício de seres seja o destino. 
Todos estão fadados a um. 
Não existem deuses que salvem. 
O sol pode até brilhar para todos. 
Porém para alguns ele é mais quente. 
Para outros só resta a sombra fria, 
o desalento, a morte dos vencidos. 

Ela está aqui. 
Não veio pedir perdão, nem chorar. 
Apenas veio para assistir. 
O fim de mais uma grande mentira. 
Restos esquecidos em cabeças que insistem. 
Fingir. 
A sanidade que nunca habitou aqui. 

Tais Medeiros.


02/07/2018

Entretanto, nosso amigo pau de INBOX do sábado de manhã não contava que entre casais eu não me meto, a não ser que me convidem com aprovação e participação de ambos. Mas depois da foto fica difícil ter interesse. [TEXTICULO 81]

Eu realmente tento entender tudo, cada mania, cada comportamento, cada pensamento, todos os lados de cada história. Mas eu não consigo entender e muito menos achar uma lógica nessa história de enviar piroca por INBOX. Eu até entendo quando uma pessoa pede "nudes" para outra pessoa, se ela manda ou não manda, não cabe a mim julgar. Eu ultimamente adotei o Instagram - se quer nudes procure lá entre as 1594 publicações, está garantido uns peitinhos lá e se for “me expor pela internet”, não esqueça de colocar o link do blog. O Choconhaque agradece. 

Mas voltando as invasões de piroca. Um cara que envia a foto do pau para uma garota sem ela ter pedido. Tem o que na cabeça? Não estou aqui querendo impor um moralismo barato, se são adultos e fazem está troca consensual não vejo problema nenhum. Fetiches de seres humanos. As pessoas têm dessas coisas, acredito que as fotos causam tesão, somos movidos por imagens, porem eu também acredito que gifs são mais interessantes para uma possível masturbação, a imagem com movimento expande a imaginação. Porém fazer esse envio sem ser solicitado e ainda mais enviar para pessoas totalmente desconhecidas me soa estranho e curioso.

A maioria das fotos de genitais que brotam no INBOX são de pessoas que você nunca viu na vida. E antes que alguém venha com ataques, indignados por ter tais pessoas na rede social preciso esclarecer uma coisa. Estas pessoas aproximam-se com interesse em poesia, teatro, blog, são amigos de amigos e ninguém espera ser bombardeado em um bate papo por genitais anônimas. Eu não sei a opinião de todas as mulheres, não falo por todas, mas acredito que a grande maioria não quer rola por INBOX e se caso exista alguma intenção da guria de querer ver a rola de alguém ao vivo, morre ali na foto. Pênis não é fotogênico, por favor, PAREM!

Eu fiquei pensando sobre isso. Ultimamente tem aparecido uma galera estranha que me faz pensar sobre a solidão que vivemos e no produto que se tornou nosso corpo. Começa com um oi. Gosto dos seus contos, eu agradeço e POW... Pau no INBOX. Será que a pessoa quer me inspirar a escrever? Se era isso. Parabéns, aqui está o texto. 

Estamos em uma época de insegurança emocional, onde as pessoas precisam ser cultuadas, elogiadas a todo momento. Entretanto não usam do carácter ou de uma conversa interessante, elas expõem aquilo que pensam que tem de melhor - o corpo e suas genitais. O nu para mim é algo natural o jeito que as coisas estão sendo feitas que me parecem fora do normal. Não faz muito tempo fui protagonista de um fato até que interessante. O ocorrido me fez aprofundar a reflexão sobre - A síndrome da piroca no INBOX.

Era um sábado às seis horas da manhã, eu já estava de pé, trabalho no final de semana. Eu não tinha nem arrancado a remela do olho e o Messenger pulou, informando que havia uma mensagem. Eu não conhecia o rapaz da foto então abri para ver. Eu devia saber que não era coisa boa, afinal às seis da manhã de um sábado não tem como ser - ou é problema ou é problema. O conversa começou assim.

- Você falou de rola?!

- Oi? Bom dia. Desculpa, você deve estar na conversa errada. Eu nunca falei com você. Procura melhor no seu Messenger. Acho que você estava falando com outra pessoa.

O rapaz respondeu - É com você sim. Então POWWWW ... Foto do pau no INBOX. E além dele enviar a foto ele pedia aprovação. Queria que eu avaliasse, falasse o que eu achava do pênis dele.

Eu respirei fundo e pensei - deve ter algum problema esse rapaz. Não que não goste de pau, mas nessas condições, a essas horas! Por favor.

Perguntei ao rapaz se estava tudo bem. Se alguém em algum momento de sua vida falou mal do pau dele. Disse a ele, caso isso tenha ocorrido ele precisava superar, se ele se sente bem com ele mesmo o resto que se foda. Mas se ele não estivesse bem com o próprio corpo deveria procurar um profissional, mas não do sexo, o da mente... Tipo um psicologo. 

Deixei claro para ele que isso não era normal, ainda mais se tratando da hora. Ele se expondo assim para alguém que ele não conhece. Então o pau INBOX do sábado de manhã desabafou.

Ele me disse que descobriu que sua esposa estava lhe traindo. A mulher mantinha um caso com um colega de trabalho. Ela não sabe que ele sabe, mas confessa que depois que ela arrumou esse caso, ela ficou melhor para ele, principalmente na cama. Estava mais ativa, mais arrumada e até mais atenciosa. Não sabia se ela era movida pelo sentimento de culpa ou por que estava satisfeita e feliz mesmo. Ele confessou até que estava feliz por vê-la assim, porém não sabia o que fazer, afinal ser corno e manso não é algo que a sociedade admite. Então entendi. 

Aquele desespero da aprovação do pau tinha duas finalidades. A primeira, entender por que a mulher arrumou outro homem. Será que ele não a fazia feliz? Não satisfazia? Acho que essa é a primeira coisa que todo ser humano que é traído pensa. Eu não satisfaço meu parceiro sexualmente. A gente fica sem razão, paranoico. Esquecemos que a relação a dois não é mantida só com base no sexo, contudo após ser traído nós reduzimos toda uma história à isso. Não ponderamos alguns fatos, como o de existir pessoas que fode bem, mas não tem mais nada para oferecer. É só uma foda boa e uma presença vazia. Então por que continuar?

A mulher do rapaz ficou e ficou melhor do que era, então havia mais que sexo naquela relação. Eu disse a ele que talvez ela quisesse só uma aventura, porém era ele que tinha que saber até onde ele aguentaria essa situação. Ele precisava pensar em não se magoar e não machucar ela. Muita gente permite algumas coisas e depois não sabem lidar com suas escolhas de forma não violenta. Pensar e decidir sobre esse assunto  somente cabia a ele a mais ninguém. 

A segunda conclusão que cheguei com está conversa, é que o cara estava tentando arrumar uma amante também. Fazer a linha relação aberta. Penso que também seja um mecanismo de defesa dele. Se alguém descobrir que sua mulher tem outro, ele pode alegar que eles são um casal moderno e que ele tinha outra também. Seres humanos. Sempre usando os outros para se sobressair. Entretanto, nosso amigo pau de INBOX do sábado de manhã não contava que entre casais eu não me meto, a não ser que me convidem com aprovação e participação de ambos. Mas depois da foto fica difícil ter interesse.


Tais Medeiros.

14/06/2018

Sessão Poema - Parte LXXIII [Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.]

Arte: "Outra Favela" - Rodrigo Guimarães.


São gatos, cachorros, carros e motos
A vizinha que lava louça a espera de algo, a espera de alguém.
Barulhos noturnos de uma periferia que insiste.
Insiste em existir, em viver.
Nunca existe a benção do silêncio.
Guardamos ele para nossos mortos.
Sempre movimento, planos entre vielas.
E o poeta em seu quarto escuro matuta uma salvação.
Sabe dos legais e ilegais.
Mas não degenerar dos seus.
Criminoso é o Estado.
Que se vende como uma puta barata aos senhores.
Donos de escravos assalariados.
Sucateia serviços, sucateia vidas.
Privatiza oportunidade, parcela sonhos em uma eterna dívida.
Políticas excludentes.
Não contemplam quem batalha duro para existir. 

“Nois” não quer só existir.
“Nois” quer viver.

Temos fome e não é só de comida.
Não é só de consumo, poder aquisitivo.
É de voz, de olhar, de cultura de um abraço.
Finalmente uma identidade brasileira.
Na periferia também tem seu lado bom.
A gente se olha, se sente.
O morro ao inverso.
Ele vem de baixo para cima.
Ladeiras, escadões.
Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.
 
Há precariedade nos acessos.
Distante das suas modernidades de bicho homem.
Homem do centro, do metrô, do asfalto.
Casas corretamente arquitetadas.
Descendentes de Europeus em suas Naus contemporâneas.
Taxando a nós de selvagens.
Por não (ter) como eles.
Culpando-nos por viver assim, por estar aqui. 
Mas índio/negro tem terra;
índio/negro tem cultura, 
índio/negro tem vida.
Tem história... resistência.

Somos a herança dos índios e negros mortos, explorados.
Que construíram essa terra.
A custa de muito suor, sangue, dor e lágrima.
Por eles viemos cobrar a indenização.
Por bem ou mal. 

Existe um lugar para nós.
E não podem nos limitar, nos subestimar, agredir.
Porque apesar do nome ser quebrada, somos inteiros.

Tais Medeiros. 

22/05/2018

Sessão Poema - Parte LXXII [Eu quero ver. Antes que me ceguem.]

Arte: Frida Castelli


Eu quero ver.

Quem vai para mundo vestido si.

Quem tem coragem de se assumir.

Seus defeitos, suas dores e dissabores.

Quem tem coragem de tirar as máscaras.

Reconhecer de onde veio.

E não sabe ao certo para onde vai.

Quero ver quem ama...

Apenas pelo fato de amor.

Sem ilusões de filtros, de status sociais.

Ama fora da rede, para além da posse.

Quem consegue está com alguém sem torna-lo um prêmio de conquista?

Um objeto, desejo vão.

Quem consegue transpor as crises?

Aceitar a bagunça que pode ser o outro.

Sem julgar o passado, sem controlar o presente sem temer o futuro.

Eu quero é ver.

Quem é bom de graça.

Sem se apoiar em religiões ou em códigos.
Civis ou criminais.

O amor de deus não cabe dentro de uma religião, dentro de livros.

Ele se materializa no ar, na terra, na água, na luz...
em um abraço.

Se existe o sagrado!
ele é a natureza.
É o ser com o outro e não sobre o outro.

Não servir, nem se curvar.

É olhar de igual.

Sem precisar pôr os joelhos no chão para livrar-te do pecado.

O pecado foi criado para separar mundos.

O paraíso e o inferno são cabrestos.

O Sagrado e o profano, o bem e o mal.

Tudo criado para educar pelo medo.

Tudo criado para nos dividir.

Delírios de superioridade.

E a gente só existe aqui.

Somos o agora.

Quero ver quem consegue viver de cara limpa, alma leve e peito aberto.

Quem consegue sair desse ciclo vicioso...
chamado sistema.

Dessa sede insaciável por poder.

Dinheiro!!

Quem se vende menos?

Quem súplica mais?

Eu quero ver.

A quem interessa vazio.

Quem luta por todos mesmo sem abrigo;

Quem beija os lábios mesmo sem fuder.

Eu quero ver.

Quem consegue olhar e gostar do que ver diante do espelho.

Quem põem a cabeça sobre o travesseiro e dorme tranquilo.

O sono dos justos, ou será, dos injustos?

Eu quero ver.

Antes que me ceguem.

Tais Medeiros.