26/07/2017

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. [TEXTICULO 74]

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. Ele até fazia um belo café, podia dissertar horas e horas sobre literatura e filosofia, conhecia bares como ninguém. Porém, ele oferece só para os outros o melhor de si. Para ela só resta o olhar gélido da desconfiança, seus pensamentos fora do que representa ser. Relutava vê-la como igual ao mesmo nível de criação e vida. No escuro do quarto a elogiava por sua voluptuosidade, sua inteligência e imaginação, ao amanhecer um beijo seco e pelas ruas indiferença. Ele não a admirava quando ela brilhava nas noites perambulando ao seu lado nas sarjetas, entre prostituas, viciados, ladrões, traficantes, trabalhadores, todos a notavam e a elogiavam pela mente poética, pela simpatia e reflexões acolhedoras. Tudo que ele via no escuro e negava na claridade. Ela diz: Ele teme amar uma mulher forte, livre. Ele se defende, diz não ser bem assim. Alega que admira, não deseja castra-la ou competir, apenas sente medo não de amar, mas de não ser amado. Entrega-se a esse turbilhão feminino e nada restar após da tempestade que ela significa. Por isso se afoga em wihisky e cigarros baratos. Ele tem consciência do papel que ocupa na vida dela, mas por traumas que ele insiste em alimentar não se arrisca, é sempre o medo... Ele não percebe que a única coisa que difere as duas almas perturbadas e incandescentes é esse medo de ousar, tentar, de viver, devorar tudo até as entranhas, sem medo de perder sem culpa de ganhar. Ele teme a exposição de seus defeitos e fraquezas, teme reconhecer que é também responsável por seus dissabores. Não quer vestir a simples carcaça de ser humano. Deseja ser o rei do desapego, ninguém o submete ao ridículo. Pobre rapaz. Racionaliza sobre tudo, quando o amor é apenas uma doce loucura. Ela estava pronta para enlouquecer ao seu lado, construir história. Não trazia nada nas malas que chama de corpo, nem passado, nem presente, nem futuro. Ela ousava recomeçar do zero, renascer em terras desconhecidas, esquecida de tudo que já aprendeu para aprender mais, viver mais. Ela sabe que seu tempo é sempre o agora, não existe outras épocas, outros amores, outras dores. Não descasca feridas, não abre cicatrizes seus demônios a muito tempo foram exorcizados, ela apenas quer correntes de água quentes para amar suas carcaças até quando der, quando puder. Mas foi o medo, o maldito medo que enfraquece o ser, as melhores coisas foram postas depois do medo é preciso vence-lo, desafia-lo para poder receber o pote de ouro no fim do arco íris. Ela até queria ama-lo incessantemente, contudo ela não ama homens fracos.

Tais Medeiros

Dei um beijo na boca do medo e saí por aí
Pela noite tão longa
Passei por terreiros iluminados, na rodoviária
Meu mundo caiu
Peguei na mala uma meia
Vai fazer frio, vai fazer frio
Só me interessam correntes de ar quente
E o que sente um golfinho
Nas grandes rotas do mar
Eu não tenho casa, eu não tenho grana
Vai fazer frio, vai fazer frio

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