27/07/2017

Sessão Poema - Parte LXIV [Eu sou o paradoxo.]

Arte: Apollonia Saintclair

Eu ando devorando livros;
Devorando cigarros;
Devorando destilados;
Devorando solidão.
Em contrapartida
A vida me devora.
Lentamente, mas ferozmente.
Não me concede perdão.
Inalo cigarros e escuridão.
E nada parece ter sentido.
Ando sem matilha
Um cão doente, esquecida.
No fundo de uma selva rasa.
Entretanto.
Ainda consigo sentir os cheiros.
Não perdi o instinto de caça.
E não me tornei uma.
Será difícil me achar.
Me reconhece entre a neblina.
Eu não morri...
Ainda respiro.
Vagarosamente.
Um pouco de tudo...
                   sem se importar com nada.

Não paro...
Dou um tempo até as feridas do último combate secarem.
Não espero que curem, não espero que cicatrizem.
Quero apenas que elas possam aguentar.
Mais pancadas...
Mais mordidas;
Mais pau e pedra;
Me apropriei da solidão.
Agora não espero.
Qualquer hora é hora.
O momento não será anunciado.
Pois não será o retorno do salvador.
Será eu.
Voltando do inferno
Ardente...
Em brasa.
Para transformar homens em pedras.
Afogar mulheres entre minhas pernas.
Enterrar no útero todos aqueles que sofrem.
Meus seios calaram as bocas daqueles que ousaram me renegar...
                                                                                sufocando-os. 

Uma diaba;
Um cão;
A Loba.
Em pelo e carne.
Abrindo o purgatório.
E quando retornar.
Não terá um corpo que não arda.
Que eu não entre.
Para amar ou destruir.
Não terá uma bebida que amenize.
Eu trago verdades.
Eu sou o paradoxo.
É dentro de mim...
Que reside o inferno e o paraíso.

Tais Medeiros.

26/07/2017

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. [TEXTICULO 74]

Ela até gostava dele, mas gostava mais de bar, café, coragem e poesia. Ele até fazia um belo café, podia dissertar horas e horas sobre literatura e filosofia, conhecia bares como ninguém. Porém, ele oferece só para os outros o melhor de si. Para ela só resta o olhar gélido da desconfiança, seus pensamentos fora do que representa ser. Relutava vê-la como igual ao mesmo nível de criação e vida. No escuro do quarto a elogiava por sua voluptuosidade, sua inteligência e imaginação, ao amanhecer um beijo seco e pelas ruas indiferença. Ele não a admirava quando ela brilhava nas noites perambulando ao seu lado nas sarjetas, entre prostituas, viciados, ladrões, traficantes, trabalhadores, todos a notavam e a elogiavam pela mente poética, pela simpatia e reflexões acolhedoras. Tudo que ele via no escuro e negava na claridade. Ela diz: Ele teme amar uma mulher forte, livre. Ele se defende, diz não ser bem assim. Alega que admira, não deseja castra-la ou competir, apenas sente medo não de amar, mas de não ser amado. Entrega-se a esse turbilhão feminino e nada restar após da tempestade que ela significa. Por isso se afoga em wihisky e cigarros baratos. Ele tem consciência do papel que ocupa na vida dela, mas por traumas que ele insiste em alimentar não se arrisca, é sempre o medo... Ele não percebe que a única coisa que difere as duas almas perturbadas e incandescentes é esse medo de ousar, tentar, de viver, devorar tudo até as entranhas, sem medo de perder sem culpa de ganhar. Ele teme a exposição de seus defeitos e fraquezas, teme reconhecer que é também responsável por seus dissabores. Não quer vestir a simples carcaça de ser humano. Deseja ser o rei do desapego, ninguém o submete ao ridículo. Pobre rapaz. Racionaliza sobre tudo, quando o amor é apenas uma doce loucura. Ela estava pronta para enlouquecer ao seu lado, construir história. Não trazia nada nas malas que chama de corpo, nem passado, nem presente, nem futuro. Ela ousava recomeçar do zero, renascer em terras desconhecidas, esquecida de tudo que já aprendeu para aprender mais, viver mais. Ela sabe que seu tempo é sempre o agora, não existe outras épocas, outros amores, outras dores. Não descasca feridas, não abre cicatrizes seus demônios a muito tempo foram exorcizados, ela apenas quer correntes de água quentes para amar suas carcaças até quando der, quando puder. Mas foi o medo, o maldito medo que enfraquece o ser, as melhores coisas foram postas depois do medo é preciso vence-lo, desafia-lo para poder receber o pote de ouro no fim do arco íris. Ela até queria ama-lo incessantemente, contudo ela não ama homens fracos.

Tais Medeiros

Dei um beijo na boca do medo e saí por aí
Pela noite tão longa
Passei por terreiros iluminados, na rodoviária
Meu mundo caiu
Peguei na mala uma meia
Vai fazer frio, vai fazer frio
Só me interessam correntes de ar quente
E o que sente um golfinho
Nas grandes rotas do mar
Eu não tenho casa, eu não tenho grana
Vai fazer frio, vai fazer frio

22/07/2017

Sessão Poema - Parte LXIII [“Um sonho de Pierrot e um beijo de Arlequim. ”]

Arte: Nudegrafia


Fomos carne.
Nos despedaçamos obstinadamente.
Nos consumimos até os ossos.
Desejos de útero latente.
Paixão que se mata na cama.
Rasgando lençóis.
Sentimentos vividos na pele.
Satisfaz o corpo.
Um deleite...
Um desfrute...
Um instante.
Ainda me excito só de lembrar.
Mas sua loucura foi mentira.
Sobressaiu a minha.
E você não suporta.
Não sou pedaço, meu bem.
Eu sou inteira.
E você não corre em minhas veias.
Mas habita meu corpo.
Como um Arlequim..
Que ama em noites de carnaval.

                    ***

E o que sinto por ele é calma.
Uma paixão sem marcas.
Que ganha vida em conversas descompromissadas.
Nos silêncios criativos.
No olhar dormindo.
Não almeja me escravizar na dor.
Ama-me...
Do corpo a loucura.
Não teme meus desencantos.
Meus defeitos, desesperos.
Meus risos altos e frouxos.
Os convites promíscuos.
Bebedeiras e torpor.
Me vê menina...
Chame-me de anjo.
Mesmo quando ardo no inferno do seu corpo.
E é sempre olho no olho.
E até na distância se faz presente.
Ele é a calmaria diante do tormento do meu ser.
O repouso da minha mente.
Meu Pierrot
E eu?
Sou Colombina.
Ardente...
Inflamada de amor e tesão.
Desejando avidamente.
“Um sonho de Pierrot e um beijo de Arlequim. ”

Tais Medeiros.

21/07/2017

Sessão Poema - Parte LXII [Energias místicas, cristais piramidais.]



Vendo luz.

Para alimentar nossa natureza.

Inflamar o âmago.

Fortalecer o que nos constitui.

Energias místicas, a força dos cristais.

Atraindo o bem, bloqueando males.

E nosso corpo.

Templo dos gozos, das dores, sabores.

Pirâmide.

Reserva na base energia.

Íntima...

Combustível para continuar.

Emano luz.

Para acender novas veredas

Há tempos escondida na neblina.

A escuridão não dá mais abrigo;

As sarjetas já não saciam mais.

Eu doo luz.

Um instante de sanidade cósmica.

Que nasce e se põe junto ao Sol.

Fertilizando sonhos.

Cultivando vida.

Mudanças que nos alimentam.

Transforma.

Amores que nos aceitam.

Seguindo o rio de Sidarta.

Onde as águas nunca são as mesmas.

Um obstáculo a ser vencido.

Talvez traga algo a ser aprendido.

Tudo flui, tudo se renova.

Energias místicas, cristais piramidais.



Tais Medeiros.

17/07/2017

Sessão Poema - Parte LXI [Hoje...]

Arte Frida Castelli


Eu sabia ler o seu silêncio.

Então um dia eu descobri...
                   que não sei ler.

Eu velava sua solidão.

Para poder entender.

Então compreendi.

Que entendo tudo errado.

Não nos arrisco mais.

Agora eu aguardo...

Espero que algo aconteça.

Não manípulo os fatos, as vontades.

Quero que seja saudade, desejo.

Espero que você queira de novo;

Senti meu gosto em sua boca.

Bebendo-me toda.

Como naquelas noites de setembro.

Quando dançávamos sobre a cama

Sem ver o dia raiar.

E você rir...

Quando digo que sou maluca.

E eu acredito...

Quando você diz gostar de mim.

E dentro dessas nossas mentes perturbadas a gente se engana.

Hoje...

Fingimos nada sentir.

Tais Medeiros.


15/07/2017

- Quer que eu me apaixone? Então me dê mais conversas boas, mais sorrisos frouxos, mais fodas despudoradas, mais doses, mais sacanagem. Me dê abraços fortes, beijos, carinhos, cumplicidade. Me dê lealdade, liberdade. Me queira livre. E que dentro dessa liberdade eu me ache, me prenda por que querer, não por precisar. Me dê você do jeito que é, sem mascarás. Consegue? [TEXTICULO 73]

- Como faço para você se apaixonar? 

Ele me perguntou com os olhos embriagados, fumando nosso último cigarro. Eu não espero tal pergunta, afinal, eu me apaixono todos dias, sou um ser apaixonado. Me assusta saber que alguém pense que exista dificuldades em chegar até a mim. Não sou de mistérios ou poses, mas me parece que não deixo nada claro no escuro das mentes de quem se aproxima. Era nosso segundo ou terceiro encontro, não lembro bem, todos nossos encontros têm gosto de primeira vez, isso é bom, pois acaba não tendo data de validade.

Seus olhos pousaram em mim novamente, insistindo em uma receita. Parece que hoje tudo tem que ter uma receita, um tutorial o velho manual de instrução, tempos modernos. Ninguém se arrisca.

- Como faz para se apaixonar? 


As perguntas pareciam fáceis, mas nada saia da minha boca, não dá para contextualizar paixão, amor. Eu ao menos nunca consegui. Escrevo desesperadamente para tentar alcançar o mínimo de entendimento sobre tudo isso que acontece internamente. Não consigo aceitar que essas relações foram criadas apenas para manter as instituições - Família, Estado, Propriedade Privada. Tem que ser coisa de alma, que transcenda algo além do que já temos do que já conhecemos. Por favor, não mate esses meus pensamentos.

Eu não neguei uma receita a ele, já que lhe interessava consumir meus sentimentos - não sei dizer se era uma vontade real ou simplesmente fogo no cú e você sabe, fogo no cú passa. Mas eu não temo essas decepções, pago para ver quanto vou ganhar ou perder, assumo a aposta e eu nunca saio totalmente lisa desses fogos no cú para o lado negro da força que as pessoas têm. Então terminado o último trago do nosso último cigarro, matando a dose derradeira de nosso último conhaque, eu lhe disse, com as vistas turvas, mais de semblante sério.

- Quer que eu me apaixone? Então me dê mais conversas boas, mais sorrisos frouxos, mais fodas despudoradas, mais doses, mais sacanagem. Me dê abraços fortes, beijos, carinhos, cumplicidade. Me dê lealdade, liberdade. Me queira livre. E que dentro dessa liberdade eu me ache, me prenda por querer, não por precisar. Me dê você do jeito que é, sem mascarás. Consegue? Se conseguir já nos imagino. Eu buscando as crianças no inglês e você terminando as almôndegas para o jantar. 

Tais Medeiros. 



Estou pensando em você
Quero lhe ver
Mas nesse horário você deve estar
Pegando os filhotes no colégio
Depois chegar em casa
Ver o resto de tudo
E quando vem o silêncio
Fumar unzinho e ouvir Coltrane
Não faço mais isso mas entendo muito bem
Adoro os teus cabelos
Adoro a tua voz
Adoro teu estilo
Adoro tua paz de espírito

12/07/2017

Sessão Poema - Parte LX [ Escreva no corpo, com o corpo.]

Imagem: @Psicodelication - Arte & Psychedelic

Ele aguentou minhas linhas;

O peso da minha mente;

Meu sexo desesperado;

Minhas dores guardadas;

Minhas marcas.

Aguentou meus beijos embriagados e os desejos sem lógicas.

Ele me viu assim...

Poesia vestida de mulher.

A poesia sensual, livre. 

Para cima, por cima.

E eu enlouqueço de palavras febris.

Escrevo pelas paredes versos sobre nós.

Ele me pede...

“escreva no corpo, com o corpo.”

Agora podemos falar de saudade.

Você parte...

Mas não de mim.

E pelo cheiro que lhe acho.

No tato, no contato.

Para nos lambuzar novamente.

Tais Medeiros.


Sessão [CONTÍCULOS 02] Eu “aprendi” a escrever...

 @Psicodelication - Arte & Psychedelic


[...] Eu “aprendi” a escrever...
Quando comecei a viver o amor e não sofrer por ele. Quando comecei a olhar os acontecimentos da vida, bons ou ruins como capítulos de um belo louco livro, onde o sofrimento se expurga e as alegrias se espalham. Eu “aprendi” a escrever... Quando gostei da minha imagem refletida no espelho pela primeira vez, quando me vi nua na normalidade dos corpos, com marcas e histórias. Quando me reconheci, reconheci o outro, como pessoa, como escritores inconscientes de sua própria história. Atravessando céus e infernos em buscas decadentes em uma certeza pálida. Às vezes um descanso no purgatório para tentar alinhar a vida e depois voltam a peregrinar na sua existência. Se eles tivessem consciência da obra que criam, escreveriam em papeis, muros no céu tudo que vivem, tudo que sentem. Eu acredito piamente que os sofrimentos psíquicos e outros males criados por nós não existiram mais, pois tudo seria linhas, versos, contos, romances, prosa. Eu “aprendi” a escrever... Quando tive a certeza que só existem incertezas, por isso é necessário o arriscar – alguma coisa pode dar certo. Eu “aprendi” a escrever assim... Vendo o real em tons surreais, vendo o homem e o mundo cru, mas os beijando lascivamente com poesias. Acho que "aprendi" a escrever quando "aprendi" a viver, porém só acho, sabe... Incertezas.

Tais Medeiros.






07/07/2017

Sessão Poema - Parte LIX [No País das Maravilhas.]

Arte: Frank Brunner 


Ele me chama de Alice...
Não por me confundir com paixões do passado.
Foi a forma romântica que ele achou...
                    para me chamar de louca.
E eu...
Dou risada de suas ideias lunáticas...
Não por zombar.
Mas por admirar o brilho que veem dos seus olhos.
Quando fala de seres de outros mundos.

Aqueles olhos castanhos da cor de conhaque.
Me embebedo neles...
Até de cabeça para baixo.
Meu pequeno grande Chapeleiro.
Que se vai em suas danças malucas pelo mundo.

E eu espero... 
O próximo coelho passar...
Apressado a me levar por entre matas fantásticas.
Para o buraco certo...
Onde você me encontra.
Quente, úmida e apaixonada.
Ansiosa e trêmula...
Aguardando o retorno.
Ao País Das Nossas Maravilhas.

Tais Medeiros.

06/07/2017

Carpe Diem - Me dê tudo que tenho direito... O pau, o corpo, as juras, as brigas os risos, os abraços, as noites de torpor e os dias de regalos não me negue nada, nem mentiras nem verdades "o resto é sorte e azar." [TEXTICULO 72]

Arte: Nudegrafia


Sabe aqueles dias que você acorda com uma vontade de chupar um pau? Mas não um pau qualquer. Sabemos muito bem qual é o objeto desejo. Ele tem nome, endereço, CPF, redes socais é o tipo de pau que traz saudade, mesmo que deixe angustias a serem afogadas em copos de destilados. As doses mais fortes para os corações mais intensos.

Por favor, não gaste sua moralidade comigo, pensando que sou dissimulada, transgressora uma PUTA por desejar um belo pau de café da manhã, até porque as putas sim sabem viver. E eu? Ainda estou aprendendo do que somos feitos - carne, suor e tesão.

Ás vezes sucumbimos as lagrimas, porém faz parte do show da trágica comédia do ser humano. De certa forma tudo nessa vida dói não é fácil viver e se fosse acredito que seria o tédio dos tédios. Então por que não viver e sofrer de prazer? A gente rola no inferno pensando estar no céu e tudo nos é valido, tudo nos cabe. Do amor eu quero tudo e nada deixo.

E eu ainda sinto seu cheiro por toda casa, pelo meu corpo até meu hálito é você. Eu beberia você de novo e novo sem medo da ressaca, sem medo da dor da partida já anunciada. Somente me importa o agora "Carpe Diem."

Esse negócio de se resguardar apenas serve para mulheres pós-parto, esse negócio de cautela, de ir devagar com medo de se magoar, se apaixonar apenas serve para quem não sabe amar ou para quem não se ama. Me dê tudo que tenho direito... O pau, o corpo, as juras, as brigas os risos, os abraços, as noites de torpor e os dias de regalos não me negue nada, nem mentiras nem verdades "o resto é sorte e azar."

Eu me renovo todos os dias, todas as noites, a cada beijo, a cada olhar, cada troca de afeto que tenho com os outros e comigo. Meus amores são todos únicos, mas não me param. Não consigo alimentar medos e traumas apenas sei alimentar tesão, paixões e boas lembranças, enxugar o choro e seguir para novos horizontes. Sempre em frente de cara limpa, coração cheio e mente barulhenta.

Tais Medeiros. 



Tudo é questão de obedecer ao instinto.
Que o coração ensina a ter, ensina a ter.
Correr o risco, apostar num sonho de amor.
O resto é sorte e azar.
Tudo é questão de não se negar nada.
A nenhuma força que dê luz, que dê luz.
Seja de Deus ou do Diabo se for claro.
É só pagar pra ver, é só pagar pra ver.
E se por acaso, doer demais.
É porque valeu.