18/06/2017

Eu sempre o decepcionei, desde que seus olhos fitaram os meus pela primeira vez. Eu sempre torta, sempre cheia, sempre perturbada e perturbadora. O corpo vibrando de tesão e de medo, questionando tudo e fugindo do nada, me protegendo da garoa e me afogando em tempestade. Eu sempre intimidando sem querer intimidar, abrindo feridas sem querer abrir, decifrando enigmas, me perdendo em pragas, devorando gente. Eu sempre de mente afoita, sempre barulho uma fraude... Sempre, sempre intensa rolando no inferno sem saber na verdade como viver. [TEXTICULO 71]

O silêncio dele falará tudo, eu não tive reação. Contive às lagrimas, nada adiantaria apelar para fragilidade feminina. Olhei ao redor e pela primeira vez tive vontade de partir, esquecer tudo que já tínhamos vivido, naquele quarto, naquela cama, nada mais fazia sentido. Então tive a consciência de que nunca fez. Era apenas engano, enganos meus, então me vi menina alimentando pássaros mortos. Lembro-me de quando o avistei pela primeira vez, foram suas fotos imponentes, paixões modernas, a gente se interessa sem ao menos olhar nos olhos, impressionante, deve ser por isso que quase todas dão MERDA. Relacionamentos líquidos e as velhas expectativas mal alimentadas. A gente se perde no querer.

As relações são assim agora, instantâneas. Goze e parta, se tiver sorte de gozar ao menos, mas sempre parta deixem marcas, deixem cacos e sinta-se vitorioso se conseguir deixar estrago. Hoje nada mais toca almas, hoje o outro não importa mais. O foco da competição desses seres líquidos não é encontrar a tal felicidade é ver quem ignora mais, quem engana mais, quem se importa menos, entenderam errado a filosofia do desapego. Tudo deve ser consumido até osso, nada de investimentos, nada deve ser poupado, muito menos sentimentos, muito menos a sanidade.

Ele disse que se importava muito, que gostava muito e era por isso que partiria por querer bem demais. E eu permaneci a olhar o horizonte, não havia o que entender, não havia o que aceitar contra fatos não existem argumentos. Existe um mundo que não pertencia a mim, existem “alguéns” que não sou eu. Ele tinha necessidade de novidade todo dia, não sabe lidar com convivência, rotina. Eu também tenho problema com a rotina, porém eu nos reinventava todos os dias e apesar de muitas vezes ele se isolar, dizer querer ficar só seu corpo pedia, sua mente maquinava sempre um novo desafio. Ele sempre precisava de uma nova conquista. Era assim que se sentia vivo, era a única forma de amor que conhecia. Cativar e depois se “sacrificar” para não magoar ninguém o velho clichê “Não é você, sou eu. ” Isso servia como uma dose de conhaque em noites frias.  

Contudo apesar das atitudes de bom moço seu interesse era ver mulheres loucas a lhe perturbar a gritar, implorando, amaldiçoando chorando querendo salva-lo. Se sentia mesmo vivo quando era acusado de ser o culpado por dores alheias e ruínas de castelos feitos de areia.

Eu sempre o decepcionei, desde que seus olhos fitaram os meus pela primeira vez. Eu sempre torta, sempre cheia, sempre perturbada e perturbadora. O corpo vibrando de tesão e de medo, questionando tudo e fugindo do nada, me protegendo da garoa e me afogando em tempestade. Eu sempre intimidando sem querer intimidar, abrindo feridas sem querer abrir, decifrando enigmas, me perdendo em pragas, devorando gente. Eu sempre de mente afoita, sempre barulho uma fraude... Sempre, sempre intensa rolando no inferno sem saber na verdade como viver.

Ele percebeu que não ia dar certo, eu ia contra tudo aquilo que lhe dava vida, pois ele precisar desorganizar seres e não organizar, ele já estava muito ocupado com sua própria bagunça. Seu empenho fugaz em me fazer implorar, culpar, mendigar não vingou. Eu partir da mesma forma que cheguei no silêncio. Essa coreografia eu já dancei. Se ele queria fazer eu viver algo que nunca vivi, devia ter me apresentado essa tal paz e esse tal amor que todos dizem me faltar.

Tais Medeiros.

Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos
E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade


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