22/06/2017

Cenas Curtas - Monólogo de Jennifer Arranca-Olho [A sanidade que eu não quero pra mim.]


Não aguento mais. É muito barulho...tudo muito, muito nessa cabeça. E parece que nada alivia, nada esvazia. Cigarros, álcool, remédios, drogas ilícitas até o que parece ser amor não satisfaz.

O sexo é o máximo de refúgio que alcanço. É nele que sinto fazer parte de algo de alguém. É nele que sinto controle pelo descontrole, sinto que posso mudar as coisas lá fora, como mudamos de posição quando algo não agrada, machuca. Sinto-me senhora do destino e não apenas mais um socando as paredes do imutável. O mundo lá fora nos parece inatingível. Ele tem mais barulho que nesta cabeça desorganizada. É muito barulho. A cabeça não descansa nem mesmo quando durmo. Estou sempre correndo em um grande campo de questionamentos e essa carcaça que insisto em chamar de corpo reflete tudo que escondo em feridas de desiquilíbrio. Porra de desiquilíbrio emocional. Ele transforma qualquer um em um grande merda.

É porrada atrás de porrada e eu não ando cabendo mais em mim. E os acontecimentos mundo a fora me rasgam creio que os seres humanos não são mais tão humanos assim... Talvez nunca foram. É um eterno escravizar em todos os campos dessa vidinha terrestre. A gente inutiliza e usa tudo para os nossos interesses, nem deus se salvou. Fazemos parte de um circo de horror onde os palhaços não possuem graça e lutam como gladiadores não mais pela sua vida, mas pelas suas razões. O mundo está cheio de gente cheia de razão com o fucinho costurado no umbigo.

Não demos certo. E o mais foda que vendo nossa história percebo que nem tentamos dar. Por favor! Cortem os pintos, costurem as bucetas ninguém mais entra apenas sai desse purgatório, terreiro de anjos caídos. Não procriem mais.

Não queremos mais seres sem brilhos nos olhos, sem poesia na alma, sem humanidade sem amor. Não queremos seres líquidos, descartáveis que não sabem ver a beleza dos dias. Gente que ovaciona politicas não públicas, se divide em classe, em gênero, gente que não se olha. Que está aqui apenas para garantir o seu e nada mais, gente que tortura. E não falo apenas daqueles que cometem crimes alegando ser justiça. Eu falo de você, falo de mim. Que torturamos uns aos outros para afirmar nossa existência. A gente não deve existir, devemos viver porra.... Eu sempre digo, sempre grito para ouvidos surdos para o silêncio e o eco vem e soca minha cara. Me chama de imprudente, sonhadora diz que nada entendo. E nos revides mais fortes me derruba com um tufão de ecos que não são meus - "vitimista, comunista, esquerdista, feminista." São tantos ISTA que não faz sentido, não dá abrigo. Nunca me chamou de humanista.

Nos enterramos na vala das conveniências. Esquecermos ideais, esquecemos os outros enterramos sonhos, nos esquecemos para ser “O Vencedor” que o neoliberalismo tanto quer. Inutilizamos tudo, criticamos tudo... Ahh! E olha você ai. O que você está fazendo nesse momento? Filha da puta...Eu estou despejando tudo que você finge não ver, tudo que bate e machuca e não some. Eu estou tentando não ficar sã, já que o conceito de sanidade dessa humanidade engessam corações. Eu não aceito que ele exista só para bombear sangue.

E eu nem sei mais porquê escrevo, porquê falo, porquê penso. Não consigo organizar os pensamentos as sensações. Vivo a escalar esse poço fundo chamado homo sapiens (homem sábio) a fim de achar sua essência, vivo arranhando muros de indiferenças.

Não é possível... Não é possível... Olha pra mim... Olha pra mim... OLHA PRA MIM. Olha pra nós. Dinossauros foram instintos por tão pouco e eles tinham a irracionalidade ao seu favor. Não seja um predador, pregador de dor. Olhe, olhe em volta, existe mais, existe mais.... Mais que dinheiro, mais que status, mais que poder, mais que seu carro, seu cargo, seu condomínio suas particularidades. Não é só uma questão de sobreviver. O mundo é grande o mundo é bom, é bom. Olhe, olhe... por favor. Olhe como gente, com à alma. E depois que você conseguir se reconhecer no espelho.... Me abrace.

Tais Medeiros.




21/06/2017

Sessão Poema - Parte LVII [Ereções poéticas. Lubrificações de amor.]


Arte: Nudegrafia


Quando você voltar.
Não me peça licença.
Beije-me a boca.
Me envolva em uma abraço forte.
Deixe nossos olhos se reconhecerem.
Depois entre...
Sem bater.
Salivo só pensar.
Molhada...
Entrego-me as minhas mãos...
                        a imaginação.
Ereções poéticas.
Lubrificações de amor.

E nesse emaranhado profano.
Desperta em mim a mais louca vadia.
Que deseja está na sua pele, nas suas veias, no seu membro
Em cima, em baixo, do lado.
Em todos os cantos, em todas as formas
Ama-me depressa.
Me enfiar em você como uma navalha na carne.
"Pernoita" em mim.
Rola comigo por esse quarto.
Eu quero tudo de uma vez.
Me bagunça a cabeça, o espírito o corpo.
Preciso de uma overdose de você.
Te comer como se fosse a ultima vez.
Com o mesmo tesão da primeira.
16 horas não nos bastam.

Tais Medeiros.



19/06/2017

Sessão Poema - Parte LVI [E diga ao cabaré que fico.]

Arte: Nudegrafia.


Já que eu não posso me dar ao luxo.

Me dou a luxúria.

Danço sobre os cacos...
                     os restos de nós.

E me embebedo de novas paixões.

Mamãe já me dizia...

"você não é todo mundo."

Por isso sufoco nos lenções...
                         juras, promessas de finais felizes.

Não gosto de finais.

Vivo de recomeços.

Sem pavor do eterno retorno.

Que voltem as noites de ópio.

As olheiras de gozo.

Os toques ilícitos.

Que escorrem líquidos do corpo a garganta a baixo.

Matem o pudor.

Guardem o amor.

Não é justo deixa -lo mendigar aqui.

Eu voltei.

Mais sedenta do que nunca.

E diga ao cabaré que fico.

E não tenho hora  para sair.

Tais Medeiros

18/06/2017

Eu sempre o decepcionei, desde que seus olhos fitaram os meus pela primeira vez. Eu sempre torta, sempre cheia, sempre perturbada e perturbadora. O corpo vibrando de tesão e de medo, questionando tudo e fugindo do nada, me protegendo da garoa e me afogando em tempestade. Eu sempre intimidando sem querer intimidar, abrindo feridas sem querer abrir, decifrando enigmas, me perdendo em pragas, devorando gente. Eu sempre de mente afoita, sempre barulho uma fraude... Sempre, sempre intensa rolando no inferno sem saber na verdade como viver. [TEXTICULO 71]

O silêncio dele falará tudo, eu não tive reação. Contive às lagrimas, nada adiantaria apelar para fragilidade feminina. Olhei ao redor e pela primeira vez tive vontade de partir, esquecer tudo que já tínhamos vivido, naquele quarto, naquela cama, nada mais fazia sentido. Então tive a consciência de que nunca fez. Era apenas engano, enganos meus, então me vi menina alimentando pássaros mortos. Lembro-me de quando o avistei pela primeira vez, foram suas fotos imponentes, paixões modernas, a gente se interessa sem ao menos olhar nos olhos, impressionante, deve ser por isso que quase todas dão MERDA. Relacionamentos líquidos e as velhas expectativas mal alimentadas. A gente se perde no querer.

As relações são assim agora, instantâneas. Goze e parta, se tiver sorte de gozar ao menos, mas sempre parta deixem marcas, deixem cacos e sinta-se vitorioso se conseguir deixar estrago. Hoje nada mais toca almas, hoje o outro não importa mais. O foco da competição desses seres líquidos não é encontrar a tal felicidade é ver quem ignora mais, quem engana mais, quem se importa menos, entenderam errado a filosofia do desapego. Tudo deve ser consumido até osso, nada de investimentos, nada deve ser poupado, muito menos sentimentos, muito menos a sanidade.

Ele disse que se importava muito, que gostava muito e era por isso que partiria por querer bem demais. E eu permaneci a olhar o horizonte, não havia o que entender, não havia o que aceitar contra fatos não existem argumentos. Existe um mundo que não pertencia a mim, existem “alguéns” que não sou eu. Ele tinha necessidade de novidade todo dia, não sabe lidar com convivência, rotina. Eu também tenho problema com a rotina, porém eu nos reinventava todos os dias e apesar de muitas vezes ele se isolar, dizer querer ficar só seu corpo pedia, sua mente maquinava sempre um novo desafio. Ele sempre precisava de uma nova conquista. Era assim que se sentia vivo, era a única forma de amor que conhecia. Cativar e depois se “sacrificar” para não magoar ninguém o velho clichê “Não é você, sou eu. ” Isso servia como uma dose de conhaque em noites frias.  

Contudo apesar das atitudes de bom moço seu interesse era ver mulheres loucas a lhe perturbar a gritar, implorando, amaldiçoando chorando querendo salva-lo. Se sentia mesmo vivo quando era acusado de ser o culpado por dores alheias e ruínas de castelos feitos de areia.

Eu sempre o decepcionei, desde que seus olhos fitaram os meus pela primeira vez. Eu sempre torta, sempre cheia, sempre perturbada e perturbadora. O corpo vibrando de tesão e de medo, questionando tudo e fugindo do nada, me protegendo da garoa e me afogando em tempestade. Eu sempre intimidando sem querer intimidar, abrindo feridas sem querer abrir, decifrando enigmas, me perdendo em pragas, devorando gente. Eu sempre de mente afoita, sempre barulho uma fraude... Sempre, sempre intensa rolando no inferno sem saber na verdade como viver.

Ele percebeu que não ia dar certo, eu ia contra tudo aquilo que lhe dava vida, pois ele precisar desorganizar seres e não organizar, ele já estava muito ocupado com sua própria bagunça. Seu empenho fugaz em me fazer implorar, culpar, mendigar não vingou. Eu partir da mesma forma que cheguei no silêncio. Essa coreografia eu já dancei. Se ele queria fazer eu viver algo que nunca vivi, devia ter me apresentado essa tal paz e esse tal amor que todos dizem me faltar.

Tais Medeiros.

Essa saudade eu sei de cor
Sei o caminho dos barcos
E há muito estou alheio e quem me entende
Recebe o resto exato e tão pequeno
É dor, se há, tentava, já não tento
E ao transformar em dor o que é vaidade
E ao ter amor, se este é só orgulho
Eu faço da mentira, liberdade
E de qualquer quintal, faço cidade


03/06/2017

Sessão Poema - Parte LV [Desculpe por querer plantar girassóis no asfalto.]

imagem de internet

Desculpe...
Se vejo beleza no grotesco.
Se vejo calma no caos.
Se amo o sagrado e o profano.
Se vejo poesia na vida.
Mesmo diante de tanto tormento.
Ainda creio em sorrisos...
Apertos de mãos, abraços.
Não somente em contratos.
                **
Desculpe se acredito em igualdade.
Que todos merecem uma parte do bolo.
Se tenho sonhos ao invés de metas.
E meus objetivos beiram a utopia.
Desculpe se insisto em falar de amor.
Em falar de essência, falar de gente.
                **
Desculpe se é apenas idealismo...
E pouco pé no chão.
Desculpe por querer plantar girassóis no asfalto.
Mas eu não aceito.
Que tudo tenha que ser consumido;
E os juros contados e comemorados.
Eu não consigo...
[Tem uma escola de samba um ponto de macumba um bloco de maracatu uma guitarra sax piano uma orquestra inteira de diversidade tocando dentro de mim.]
                **
Então não posso aceitar.
Que um nasce para rir...
E outros para chorar.
Me descul...
Não, não...
Sabe de uma coisa?
NÃO ME DESCULPE.

Tais Medeiros.