03/02/2017

Sou uma farsa, somos uma farsa de quinta querendo ser tragédia grega, e eu não sei mais o porquê dessas linhas, talvez seja para organizar os pensamentos, não fazer besteira, desesperar, enlouquecer de vez. É puro masoquismo de por dedo em feridas. A dor nunca passa e eu tento de todo modo me adaptar a ela. São apenas linhas, são apenas linhas, meus pobres mortais que roem carcaças e querem arrotar filé. [TEXTICULO 61]

O cigarro no fim, o café frio e o cinzeiro transbordando cinzas. Cinzas de um tempo que não passa tempo desperdiçado. Que dia é hoje? Procuro inutilmente me achar no espaço e tempo presente, mas a cabeça sempre me retorna para o passado. Sinto dores no pé, porem e a dor no braço que me trás aos dias atuais, lembrando que a realidade dói. Faz três meses que não durmo e o braço não descansa, existe para escrever o que ninguém entende ou não quer entender. Três meses de luzes acesas e alma escura, não é consciência pesada é falta de consciência, consciência das coisas. É falta.

Não sei bem por que se foram, mas a sensação que existe hoje é que na verdade nunca estiveram aqui. Nunca foi aquilo que vivemos, não era nós eram apenas “nos”. Amarrados a necessidades baixas de suprir as coisas que nos faltam, que não conseguimos por si só ter. Temos que buscar no outro, sugar força e motivo para ser o que almeja ou pensa ser. Pessoas se moldam em pessoas. Mas uma hora a gente sente o gosto - o gosto gostoso da vitória e não são mais necessários vassalos, então viramos as costas e partimos tentando acreditar que o adeus foi apenas culpa do outro. Fico pensando. Até onde tudo é verdade?

Os dentes doem ao ingerir qualquer coisa gelada, a gengiva há dois dias faz tudo ter gosto de sangue. Eu não sei por que falo disso, deve ser por que são as coisas que me fazem lembrar que estou viva, que existo. Existir não é o bastante, não para mim. Se ao menos eu fosse poeta... Eu saberia explicar toda essa bagunça - Se fosse Deus, seria um deus melhor, consertaria tudo que existisse de errado, já está provado, apenas complicamos as coisas. E se por acaso, para meu azar, eu fosse mesmo esse diabo que insisto ver no espelho eu me entregaria.

A gente fica assim, pensando em tanta coisa que passou. Olhando o passado do mural de fotos mesmo sabendo que não há nada que valha pena buscar lá, na verdade eu sinto que tem coisas lá que posso trazer de volta. Porra essa teimosia libriana de não querer esquecer ou ser esquecida e essas certezas incertas das pessoas de nunca querem voltar.

Esse verão cinza me anima em algumas horas do dia parece que está me acompanhando, me ouvindo e entendendo. Mas quase sempre estou sobre a cama olhando o teto e falando “por que.” Cheguei à conclusão que são tantos “porquês” nessa vida sem resposta. Que me sinto um livro de gramática sem coerência. Palavras, só palavras ditas e malditas, vivemos em torno delas, precisamos delas e não sabemos usa-las. A gente não sabe de nada mesmo.

Queria um dia saber o que essa vida me reserva e se tem mesmo um continue, por que creio que somente essa não vai dá para resolver tudo, responder todas as perguntas e chorar todo o choro e talvez rir, todo riso. Essa merda de esperança sempre invade meus pensamentos melancólicos e suicidas. Sou uma farsa, somos uma farsa de quinta querendo ser tragédia grega, e eu não sei mais o porquê dessas linhas, talvez seja para organizar os pensamentos, não fazer besteira, desesperar, enlouquecer de vez. É puro masoquismo de por dedos nas feridas. A dor nunca passa e eu tento de todo modo me adaptar a ela. São apenas linhas, são apenas linhas, meus pobres mortais que roem carcaças e querem arrotar filé.

Tais Medeiros.

Sangue! Sangue!
Sangue!
Chatterton suicidou
Kurt Cobain suicidou
Getúlio Vargas suicidou
Nietzsche enlouqueceu
E eu!
Não vou nada bem
Não vou nada bem

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