20/02/2017

- Puta que o pariu, não tem nada a ser feito! Se correr o bicho pega se ficar o bicho come. Foi a frase clichê que ouvi de um outro refugiado. Antes dessa frase idiota eu já almejava estar morta, depois dela então. Minutos depois o idiota que me fazia companhia resolveu sair. A pressão que o chefe assassino causará era grande. Ele citava sobre a morte, algo que parecia um poema. Não havia saída, só existia a morte e os pobres mortais com a teoria de morrer tentando. Morreram mesmo. " Ó morte, tu que és tão forte. Que matas o gato" Pausa para alguém dizendo; - Por favor, eu não fiz nada. Buuumm. [TEXTICULO 65]

Quando informaram que o chefe surtou e estava pelas dependências do prédio atirando nas pessoas, pensei: Que sorte. Ouvia os tiros, cada um que tentava sair ou entrar na sala que fica no décimo terceiro andar era alvejado de bala. 

 - Puta que o pariu, não tem nada a ser feito! Se correr o bicho pega se ficar o bicho come. 

 Foi a frase clichê que ouvi de um outro refugiado. Antes dessa frase idiota eu já almejava estar morta, depois dela então. Minutos depois o idiota que me fazia companhia resolveu sair. A pressão que o chefe assassino causará era grande. Ele citava sobre a morte, algo que parecia um poema. Não havia saída, só existia a morte e os pobres mortais com a teoria de  morrer tentando. Morreram mesmo. " Ó morte, tu que és tão forte. Que matas o gato" Pausa para alguém dizendo; 

- Por favor, eu não fiz nada. Buuumm. 

Gritos, gemidos, choro. "Matas o rato" Outra voz, agora de uma senhora. 

- Deus tenha piedade de minha alma. 

 - Deus? 

Ouvi a voz do meu chefe calma como os dias que estava de bom humor fazendo piadas sobre religião. 

- Deus está almoçando. Pediu para eu ensinar bons modos a vocês. Buuum. 

Ouvi um tiro e logo em seguida o barulho de arma sendo engatilhada. Espiei e vi ele batendo com a espingarda no tampo da mesa pedindo para alguém sair. Ouvia-se rezas do tipo Pai Nosso, Ave Maria e umas que nunca tinha ouvido. Quem saiu foi Breno, o garoto problema da empresa. O santo do pau oco. Dizia-se pastor, mas não respeitava ninguém. Todo mundo sabia que ele traía a esposa com outra crente da empresa. 

 - Ora, ora se não temos é o filhote de Jesus Cristo com medo de morrer. Eu jurava que você seria o primeiro a se jogar na frente das balas para salvar os inocentes, santo. 

Ele falava batendo com a ponta do cano da 12 na testa de Breno. 

 - Abre a boca. 

Disse o supervisor. E Breno fez que não com a cabeça. 

- Abre ou eu quebro seus dentes com o cano. 

Sua voz tornou-se áspera como quem falava com os dentes serrados de ódio. Breno abriu e instintivamente imaginei Breno pagando um boquete para a arma. O chefe pareceu ler minha mente ao pedir para que Breno colocasse a língua para fora, mas o pastor tirou a boca do cano e colocou a língua para fora como quem está sendo examinado por um médico. 

- Imbecil! Quem disse que é para tirar a boca. 

Disse o mais recente assassino batendo mais uma vez com o cano na testa do crente fazendo um corte superficial. Confesso que causou-me certo prazer vendo o santo do pau oco passando por aquela situação. Breno gostava de pisar nas pessoas e se gabar de ser o melhor vendedor. O chefe enfiava o cano até o fundo de sua garganta, até o ponto de sentir ânsia de vômito. 

 - Jesus!!!

- Sem chorar. Se chorar estouro seus miolos. 

Dito e feito. Assim que concluiu a frase desceu uma lágrima, uma única lágrima do olho direito e só o que me lembro é do chefe virando o rosto e a cabeça de Jesus explodindo como os balões gigantes de aniversário cheio de balas e chocolates. Só que ao invés disso era pedaços de cérebro, crânio e dentes. Eu fiquei ali embaixo da mesa esperando ele se cansar ou vir me buscar. Talvez ele nem repare que entre os corpos de sua antiga equipe, não está o meu. Mas realmente não me importo em morrer, seria realmente um favor. Eu não contribuí em nada nessa vida. Não plantei uma árvore, não tive filhos e muito menos escrevi um livro. Nunca me esforcei para ser feliz ou fazer alguma coisa boa, nem ao menos amei a pátria. Pra falar a verdade, não sei como fui o esperma "vencedor", duvido que eu estava lá tentando ser fecundado, aposto que foi um acidente, algum daqueles porras desesperados me empurrou bem no olho do furacão. E agora estou aqui, 30 anos de vida bosta e vou acabar assassinada por um maluco dentro de um call center. Não vejo desfeche melhor... Minha família vai chorar, mas vai superar, todos superam, a vida continua, as dívidas continuam e as lamentações também. Falta de amor, falta de dinheiro, falta de entendimento... A vida foi só falta. 

Sei que  a mídia vai cair matando, mas também nos esquecerá fácil, sempre tem uma nova tragédia. Esse mundo é muito ruim, não, as pessoas são. Guerra, roubo, escravidão... Não dá pra viver aqui. As pessoas sempre querendo ser mais que os outros até na desgraça, humanidade doente. Vai saber o que levou o chefe a fazer isso. Eu não vou mentir, todo dia imaginava isso. Então que ele venha e acabe com essa merda de viver. 

Um barulho... A porta abre e eu escuto seus passos, confesso que me urinei, afinal quem somos nós em frente do medo? Somos seres sem controle até das nossas necessidades biológicas. Percebo que ao final da sala existem mais duas pessoas, Jairo e uma garota que apesar de tê-la encontrado algumas vezes no banheiro e no café não lembrava o nome. Talvez fosse do financeiro, com aqueles sapatos chiques e aquele terno de executiva. Quem em sã consciência usava terno naquele calor insuportável quando o ar-condicionado estava desligado a dias? Vi a careca do cara brilhar de suor e tive certeza que só podia ser Jairo. Por um momento respiro aliviada. Ele vai neles primeiro. A gente sempre acha que não vai acontecer com a gente, até que um dia você se vira e tudo muda. Mas Jairo e o chefe eram amigos, talvez ele conseguisse convence -lo de parar com isso. Ao invés disso, assim que me virei dei de cara com o chefe que estava suando feito um porco, sujo de sangue com uma garrafa de Jack na mão. Pensei: Quando passar esse porre ele vai ver a merda que fez. Será que vai ter arrependimento de verdade? 

 Eu diante da morte começo em fração de segundo "despensar" tudo que pensei antes. Covarde! Não quero mais morrer! E todas as vezes que fiz hora extra porque ele pediu com sua voz doce? Covarde! Quando conseguimos uma coisa não queremos mais. Cuzão! As vezes que o vi bebendo durante o almoço escondendo o whisky na xícara de café enquanto eu escondia minha vodca em meu squise com a marca da empresa. Filho da puta! Essa seria minha única conquista. Morrer! Mas agora prefiro continuar sem conquistar nada. 

Não consegui ver seus olhos. Ele os escondia atrás dos seus velhos óculos escuros. Sempre chegava com eles, fumando um cigarro, fedendo a ressaca e dava um bom dia com a voz grave de quem não dormira. Que merda... O idiota tem razão. Se correr o bicho pega se ficar o bicho come... Não tenho nada a fazer, já caí em um clichê e não vou cair no outro de morrer tentando. 

- Então... Faça-me um favor. Acabe com isso. Acabe com essa vida de merda, rápido... Porque já estou começando a me arrepender e quase implorando por esta vida desgraçada. Vai...Me faça esse favor. 

Ele apontou a arma bem na minha testa, segurava de pulso forte, eu fechei os olhos e na minha mente apenas vinha a imagem do meu rosto aberto. De repente: Click. E eu esperando aquele barulho ensurdecedor da espingarda explodindo. A arma saiu da minha testa, eu ainda respirava desesperadamente, abri os olhos e ele acendia um cigarro, o click sairá de seu isqueiro Zippo com uma caveira de cartola. 

- FILHO DA PUTA... Por quê? 

Ele me respondeu odiosamente calmo. 

- Não faço favores a ninguém...

Tais Medeiros & Bento Qasual
via Coletivo Insano.


Era pra frear e eu acelerei
Era só desviar, mas eu nem tentei
Passei por cima de seis
Mas eu me recordo que não fugi
Esperei até o socorro vir
Mas eu só lembro até aí
Por que eu tomo remédio demais
Por que eu sinto raiva demais
Tanto que eu não durmo mais
Já estou vendo o mal que isso faz

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