27/12/2016

- Era tudo isso que eu queria ter dito naquela noite, mas me calei covardemente, não por ser covarde, mas por tentar ser menos corajosa. Apenas garanto uma coisa, o sabor de jogar esse jogo de viver apostando todas as fichas e dobrando as apostas é mais satisfatório que esse gosto do fracasso amargando na boca, o fracasso de não ter tentado nem quebrar a cara. Trepamos como se fosse a primeira noite entreguei as armas e me tive como vencida. Chupei aquele pau pela ultima vez e abracei aquele corpo como se ele estivesse morrendo e estava mesmo, ao menos para mim... Depois disso nunca mais o vi. [TEXTICULO 52]


Jennifer acordou, esfregou os olhos estava cansada de novo, sempre cansada e a única coisa que Jennifer fazia na vida era pensar. Procurou na banqueta em meio aos livros e cinzeiro um cigarro ao menos podia fumar naquele lugar. Até que a clínica não era tão ruim. Era como um bar, muito gente insegura, maluca, fugitivas fingindo serem especiais, apenas faltava à dama da noite... O álcool. Acendeu o cigarro e caminhou até o banheiro, entre a mijada matinal e um trago Jennifer se lembrava dele...

- Faz tanto tempo, para pouco tempo.

O cara em questão era um homem que conhecerá em bar em um dia frio, nesses dias que parece que o inferno congelou e só a cachaça é capaz de aquecer o corpo, o coração e a vida. Já nas primeiras conversas ele fez Jennifer se sentir bem o achava seguro, pensou que tinha encontrado um porto para descansar. Sentia prematuramente que podia ser a maluca que fosse ele sempre tinha a palavra, o colo e o beijo certo para horas incertas.

- Mais uma história de decepção... Às pessoas nunca aprendem, ficam construindo castelos, arranha-céus sem ao menos serem engenheiros ou mestre de obra. Projetamos tantas coisas no outro, até eu calejada e desapegada me vi criando um sanatório seguro ao lado dele para enlouquecer juntos. Esse treco de amor vai acabar matando um. Somos um saco de fragilidade e nos achamos tão fortes, não conseguimos lidar com nossa própria existência e temos a petulância de querer lidar com a do outro. Aqueles dias foram mágicos, únicos mereciam mais tempo, mas foi... Passou, como tudo que é bom e dura pouco. Lembro como se fosse agora... Ele me olhava com aqueles olhos de adeus, eu sabia, só não sabia quando seria e  foi.

“Não quero te magoar. E não consigo me fazer feliz, quem dirá fazer você feliz. Minha vida é complicada e eu não sei o quero.”

- Que estupidez... Que jeito estranho de não querer magoar, magoando. Parece bonito, parece que se importa, mas na verdade só importava ele e a sua segurança de não se envolver mais. Eu podia ter implorado, eu podia ter chorado rolado no chão podia ter sequestrado e escondido ele no meu porão – se eu tivesse um porão - mantido ele em cativeiro até ele entender que merecíamos aquela chance. Eu podia ter feito tantas coisas, mas calei me controlei ruminei toda intensidade o desequilíbrio minha passionalidade e engoli. Que vida não! Durante muito tempo o que me fazia mal era não engolir nada calada, explodia, dava na cara e manda se foder certa ou errada e agora? Faz-me mal calar, calar demais, tão fraca que apelei para uma frase de música da Legião Urbana -“Vá, se você precisa ir” baixando a guarda de vez, mostrando o ser frágil e imbecil que sou.

Sabe o que eu queria mesmo? Eu queria era destroçar ele, bater na sua cara, depois beijar sua boca com tanto desespero e tesão encravaria minhas unhas em suas costas fazendo sangrar. Assim ele ia ver que ele também sangra também chora, depois eu o amaria doce em uma trepada tão real quanto a minha dor que de nós apenas sobraria os lençóis encharcados de sangue e suor. Queria dizer que eu seria capaz de perdoar todas as merdas que ele fizesse na vida, mas não poderia perdoar aquela, não por que ele estava me deixando, não era o primeiro, porem não podia perdoar aquela covardia por que era isso que era... A covardia de um homem com medo de tentar, eu sentia o cheiro do medo 
da mesma forma que sentia o cheiro do cio.

Eu aceito pessoas idiotas, pessoas medíocres, egoístas, humanitárias, narcisistas, vegetarianas, caretas, aceito a porra toda, até os corintianos, mas nunca, jamais aceitaria uma pessoa covarde. Foi naquela noite quente ao redor da mesa que já não cabia mais garrafas, cinzeiros, cigarros, cocaína e solidão que vi... Ele estava acovardado demais para tentar mudar ou piorar sua vida. Vi seus olhos lacrimejarem e de sua boca saíram às palavras que eu mais gostava de ouvir, ele gostava de mim, disse com a face rubra enchendo-me de calma para no fim fechar com a dúvida e o medo de tentar. 

“Tudo que toco, eu estrago...”

- FODA-SE! Não tem mais o que estragar em Jennifer aceite, você é o problema. Medo todos nós sentimos não é um sentimento ruim foi ele que me manteve longe dos trilhos do metro até hoje. Porem deixar para trás o que se gostar, o que se quer por covardia de sentir os sabores e dissabores, isso meu caro é imperdoável.

Jennifer sentiu calor, lavou o rosto no lavatório e organizando seus pensamentos encarou-se no espelho e proferiu as palavras como um condenado que confessa um crime que não cometeu, mas queria ter cometido.

- Era tudo isso que eu queria ter dito naquela noite, mas me calei covardemente, não por ser covarde, mas por tentar ser menos corajosa. Apenas garanto uma coisa, o sabor de jogar esse jogo de viver apostando todas as fichas e dobrando as apostas é mais satisfatório que esse gosto do fracasso amargando na boca, o fracasso de não ter tentado nem quebrar a cara. Trepamos como se fosse a primeira noite entreguei as armas e me tive como vencida. Chupei aquele pau pela ultima vez e abracei aquele corpo como se ele estivesse morrendo e estava mesmo, ao menos para mim... Depois disso nunca mais o vi. 

Tais Medeiros.




O teu jeito não me abala
Não me sinto bem no teu jogo
Vou voar mais alto que as nuvens
Entender de vez esse meu vazio
Te encontrar prá não ser sozinho...

Tudo é sempre a mesma coisa
O mesmo jeito, toda vez
Tudo é muito relativo
E a distância, já nos fez
Somos serra e litoral
Nosso final, é simples
Tchau!...

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