26/08/2016

A família partiu. E Jennifer ainda com aquele gosto de viver na boca, foi para sua casa, fumou um cigarro, deu uma olhada por cima nas redes sociais, cantarolou um trecho da música de Berlchior “Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo - Tenho pressa de viver. Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar - Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar.” [TEXTICULO 41]

Jennifer acordou pela manhã e olhou no celular, era 08h30min tentou ter uma reação mas nada veio. Nenhuma, nem boa ou ruim. Acordou cansada como todos os outros dias, apesar de nada fazer o dia todo. Sentia uma fadiga psicológica, mas acordou estranhamente agitada. Ouviu o barulho que vinha da casa ao lado e foi se juntar aos parentes. Estavam reunidos na casa da matriarca tomando café e se aprontando para irem trabalhar, ter um dia normal de rotina, que no mundo de Jennifer não cabia mais. 
Entre conversas e risos Jennifer se mostrava tranquila, diferente do que era em dias, semanas, meses, anos atrás. Desde sempre Jennifer já se mostrava uma pessoa de temperamento intenso, uma pessoa boa, mas coberta de crises tinha certo dom para merda e caos e, dentro disso tudo, quem ela mais atacava era a si mesma. Psicólogos, psiquiatras, religiões, grupos de apoio já tinha passado por todos, frequentou bem, com elogios dos envolvidos, porém nunca alcançava a porra da cura. Decidiu que não ia mais buscar esses tipos de ajuda, ela podia lidar com todo esse turbilhão existencial sozinha. E aqui está Jennifer, já no terceiro estágio de sua vida e mais perturbada que tudo. Mas agora Jennifer sabe fingir, habilidade que os seres humanos vão aperfeiçoando com o decorrer da vida. 
- Se o tempo serve para alguma coisa, é para aprimorar a arte do fingimento.
Passou os últimos meses isolada, entrou na paranóia de que ela era o grande problema do mundo. O famoso ataque de ego, como se o mundo não tivesse pragas maiores. Gastava suas tardes e noites pensando em cada confusão que se meteu, cada confusão que ajudou a criar, cada amigo que se fodeu com uma ação ou palavra dela, cada amor ou quase amor que se foi sem ela saber ao certo porque, mas fez questão de se culpar. Sentia que sua presença era amaldiçoada então se exilou, porém não sabia que não faria falta. 
A família adorou a atitude tomada, afinal era uma paz que reinava no seio da família. Mal eles sabia que dentro de Jennifer as batalhas eram constantes, devia ser por isso que sempre estava cansada. Eles viam a nova Jennifer como uma mulher que amadureceu, equilibrou-se. E Jennifer apenas se via como um grande buraco negro. 
 – Que tudo suga, mas sempre aparenta está vazio. 
Nesta manhã Jennifer acordou alegre, conversava, ria, falava demasiadamente, parecia que todos os demônios que a possuíam haviam sido exorcizados. Ela sentia seu corpo ficar leve, sua mente abrir e planos começaram a ser feitos para aquele dia. Sentia uma necessidade de ver pessoas, conversar, abraçar, quebrar aquele exílio que ela mesma se impôs. A família partiu. E Jennifer ainda com aquele gosto de viver na boca, foi para sua casa, fumou um cigarro, deu uma olhada por cima nas redes sociais, cantarolou um trecho da música de Berlchior “Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo - Tenho pressa de viver. Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar - Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar.” 
Jennifer caminhou até o banheiro, parte da casa que mais gostava de ficar, tomou um banho demorado, perfumou-se, vestiu uma roupa que tinha comprado meses atrás, olhou-se no espelho e não gostou do que viu. Seu rosto não combinava com aquele dia lindo e com a sensação de plenitude que sentia. Maquiou-se, uma maquiagem leve, parecia um anjo. Era assim que se sentia, sentia que podia levitar... Voar. Foi até o quarto e pegou um lençol, dirigiu se para a lavanderia, olhou as paredes sem reboco, subiu em cima da maquina de lavar, amarrou o lençol e, voou... De maneira leve como sentia ser. Balançando sobre o caos, já deslumbrada com o paraíso, lentamente libertando se dos sentidos. 
- Jennifer vai precisar ficar internada na ala psiquiátrica. 
- Mas ela estava muito bem doutor... Fazia tempos que não tinha comportamentos anormais. 
- Existem casos que o paciente se mostra normal para driblar o tratamento, ou por que inocentemente acredita está bem até que acontece isso. 
- Vai interna-la? Ela não vai aceitar... 
- Jennifer? Jennifer? ... 
- Hãa! 
-Vamos precisar mantê-la internada apenas para observação. 
-Hãa! 
- Jennifer, o que levou você a isso? O que sentia? 
- Eu? Me sentir livre, eu voava. Senti alivio... A sensação de que seria a última merda que faria em minha vida.

Tais Medeiros.



Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja no seu copo
No seu colo e nesse bar
Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo
Tenho pressa de viver
Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo

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