31/08/2016

Sessão poema - Parte XVIII [AMÉRICA LATIA...]



Hoje nasce mais um órfão...
Açoitado pelo velho esquema.

Sem raiz...
                  [indígena, negra ou europeia]
Apenas farelos de um povo acostumado as correntes.
                                                               [sempre as margens]

AMÉRICA LATIA...

Em frente da miragem do que sonhou ser um dia.
Armas foram entregues e mentes violadas.
Não existe estado de direito.

A ilusão de ressarcir as raças, gêneros desde sempre rebaixados.
Não existem partidos ou homens que representem.
Este estado "democrático" é um grande puteiro.
Mais uma zona violenta da favela chamada Brasil.



Tais Medeiros.

26/08/2016

A família partiu. E Jennifer ainda com aquele gosto de viver na boca, foi para sua casa, fumou um cigarro, deu uma olhada por cima nas redes sociais, cantarolou um trecho da música de Berlchior “Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo - Tenho pressa de viver. Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar - Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar.” [TEXTICULO 41]

Jennifer acordou pela manhã e olhou no celular, era 08h30min tentou ter uma reação mas nada veio. Nenhuma, nem boa ou ruim. Acordou cansada como todos os outros dias, apesar de nada fazer o dia todo. Sentia uma fadiga psicológica, mas acordou estranhamente agitada. Ouviu o barulho que vinha da casa ao lado e foi se juntar aos parentes. Estavam reunidos na casa da matriarca tomando café e se aprontando para irem trabalhar, ter um dia normal de rotina, que no mundo de Jennifer não cabia mais. 
Entre conversas e risos Jennifer se mostrava tranquila, diferente do que era em dias, semanas, meses, anos atrás. Desde sempre Jennifer já se mostrava uma pessoa de temperamento intenso, uma pessoa boa, mas coberta de crises tinha certo dom para merda e caos e, dentro disso tudo, quem ela mais atacava era a si mesma. Psicólogos, psiquiatras, religiões, grupos de apoio já tinha passado por todos, frequentou bem, com elogios dos envolvidos, porém nunca alcançava a porra da cura. Decidiu que não ia mais buscar esses tipos de ajuda, ela podia lidar com todo esse turbilhão existencial sozinha. E aqui está Jennifer, já no terceiro estágio de sua vida e mais perturbada que tudo. Mas agora Jennifer sabe fingir, habilidade que os seres humanos vão aperfeiçoando com o decorrer da vida. 
- Se o tempo serve para alguma coisa, é para aprimorar a arte do fingimento.
Passou os últimos meses isolada, entrou na paranóia de que ela era o grande problema do mundo. O famoso ataque de ego, como se o mundo não tivesse pragas maiores. Gastava suas tardes e noites pensando em cada confusão que se meteu, cada confusão que ajudou a criar, cada amigo que se fodeu com uma ação ou palavra dela, cada amor ou quase amor que se foi sem ela saber ao certo porque, mas fez questão de se culpar. Sentia que sua presença era amaldiçoada então se exilou, porém não sabia que não faria falta. 
A família adorou a atitude tomada, afinal era uma paz que reinava no seio da família. Mal eles sabia que dentro de Jennifer as batalhas eram constantes, devia ser por isso que sempre estava cansada. Eles viam a nova Jennifer como uma mulher que amadureceu, equilibrou-se. E Jennifer apenas se via como um grande buraco negro. 
 – Que tudo suga, mas sempre aparenta está vazio. 
Nesta manhã Jennifer acordou alegre, conversava, ria, falava demasiadamente, parecia que todos os demônios que a possuíam haviam sido exorcizados. Ela sentia seu corpo ficar leve, sua mente abrir e planos começaram a ser feitos para aquele dia. Sentia uma necessidade de ver pessoas, conversar, abraçar, quebrar aquele exílio que ela mesma se impôs. A família partiu. E Jennifer ainda com aquele gosto de viver na boca, foi para sua casa, fumou um cigarro, deu uma olhada por cima nas redes sociais, cantarolou um trecho da música de Berlchior “Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo - Tenho pressa de viver. Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar - Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar.” 
Jennifer caminhou até o banheiro, parte da casa que mais gostava de ficar, tomou um banho demorado, perfumou-se, vestiu uma roupa que tinha comprado meses atrás, olhou-se no espelho e não gostou do que viu. Seu rosto não combinava com aquele dia lindo e com a sensação de plenitude que sentia. Maquiou-se, uma maquiagem leve, parecia um anjo. Era assim que se sentia, sentia que podia levitar... Voar. Foi até o quarto e pegou um lençol, dirigiu se para a lavanderia, olhou as paredes sem reboco, subiu em cima da maquina de lavar, amarrou o lençol e, voou... De maneira leve como sentia ser. Balançando sobre o caos, já deslumbrada com o paraíso, lentamente libertando se dos sentidos. 
- Jennifer vai precisar ficar internada na ala psiquiátrica. 
- Mas ela estava muito bem doutor... Fazia tempos que não tinha comportamentos anormais. 
- Existem casos que o paciente se mostra normal para driblar o tratamento, ou por que inocentemente acredita está bem até que acontece isso. 
- Vai interna-la? Ela não vai aceitar... 
- Jennifer? Jennifer? ... 
- Hãa! 
-Vamos precisar mantê-la internada apenas para observação. 
-Hãa! 
- Jennifer, o que levou você a isso? O que sentia? 
- Eu? Me sentir livre, eu voava. Senti alivio... A sensação de que seria a última merda que faria em minha vida.

Tais Medeiros.



Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja no seu copo
No seu colo e nesse bar
Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo
Tenho pressa de viver
Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo

20/08/2016

Cenas Curtas: SER MULHER ENTRE OUTRAS SOBREVIVÊNCIAS (Monólogo)


Relatórios, supermercado, reunião, pediatra, terapia, hora extra, marido, abre as pernas, está gorda, está feia, está fria, está de TPM, libera, assina, demite, contrata, lava a roupa, seca a roupa, passa roupa... Jantar em 20 minutos. Você escolheu, você disse que conseguiria feminista, feminina, FÉ MENINA... FÉ MENINA... 
Você é tão competente... E ainda por cima é linda. Realmente eu não sei o que seria desse setor sem um toque feminino, um toque maternal. Eu reconheço o seu valor, reconheço mesmo. Tão proativa, dedicada, desbravadora, mas confesso... Que fiquei entre a gente... Prefiro mais o cheiro do seu perfume quando chega todas as manhãs.
Não fique pensando nisso. E dai que os outros coordenadores ganham mais? Você já está no lucro, está à frente de um grande setor de uma grande empresa. Um patamar bom para uma mulher. E convenhamos... Os homens merecem ser ressarcidos por abrirem mão de muitas coisas pela família. A saúde, por exemplo. “É uma questão de hábito. Os homens, até por que trabalham mais, não acham tempo para se dedicar a saúde preventiva.” 
Entende? Não seja egoísta...
- Não seja egoísta, não seja egoísta, não seja egoísta...
Você sabe que eu te amo. Que te apoio, mas não me casei para isso... Não idealizei uma vida a dois assim. Eu quero chegar em casa e encontrar minha mulher, como meu pai encontrava minha mãe. Cuidando da casa, dos filhos. Entendi seu desejo de independência financeira, reconheço que nossas rendas nos proporcionou uma vida tranquila, mas eu não fui criado para trabalhar fora e cuidar da louça e das crianças. Não está certo. E você disse que daria conta, eu disse que te ajudaria, porem perdi meu lar e minha supremacia. Não sei por que foi nas ideias das “Queimadoras de sutiã”. Percebe? Só aumentou o trabalho. Você não é uma mãe ruim e muito menos uma profissional ruim tem até um cargo melhor que o meu, mas e quem cuida de mim? Entenda minha posição. Não seja egoísta.
- Não seja egoísta, não seja egoísta, não seja egoísta... 

- MÃEEEE, MÃEEE, MÃEEEE...

- Oi!... Vão se limpar... O jantar estará pronto em 20 minutos.


Tais Medeiros.

08/08/2016

Eu poderia morar neste banheiro. Aqui tudo é tão calmo, a única tempestade que existe acontece dentro da privada quando a descarga é acionada e lá se vão tudo que oprime, dói e machuca. Mando a merda tudo que sou obrigada a digerir - A gente engole tanta coisa. [TEXTICULO 40]



Eu poderia morar neste banheiro. Aqui tudo é tão calmo, a única tempestade que existe acontece dentro da privada quando a descarga é acionada e lá se vão tudo que oprime, dói e machuca. Mando a merda tudo que sou obrigada a digerir - A gente engole tanta coisa.

Trabalhamos por dinheiro, status, reconhecimento, bens materiais. Ninguém quer viver do básico ou com o necessário, criasse sempre uma nova necessidade. E sempre tem aquele olhar no outro e o desejo de querer ter/ser melhor. Por este motivo o mundo se divide o famoso ditado: “Eu lhe quero bem, mas nunca melhor que eu”.

Eu realmente poderia morar neste banheiro. Depois de mandar a merda toda essa vida liquida que passa e a gente não sente pelo fato de estarmos gastando energia com mesquinharia, dando importância para coisas efêmeras: Amores rápidos, consumismo de matéria, toques frios, políticas individuais, discussões, lutando pela causa do “EU QUERO” separando grupo, muito “ISMO” e poucos seres humanos, transformando o mundo em campo de concentração uma guerrilha, pátria não gentil.

Um banho para tirar dessa carcaça todos os impasses do mundo, para ver se lava a pele, se lava a alma e liberta. Ver se acho em meio dessa usina nuclear chamado corpo e mente a cura para humanidade. Se o céu existir, ele deve ser um grande banheiro.

E eu aprecio o mundo através do vidro sujo da janela do meu banheiro e ele me engana, parece livre, mas nos aprisiona. Me pego pensando na desindividualização “A perca da autoconsciência” será esse o problema? E se fossemos mais empatia que apatia? Aprenderíamos a ouvir? Saberíamos falar? Conseguiríamos deixar o espírito vazio sem qualquer representação dessa realidade? Esse papo de harmonizar o consciente nos tornariam monges?

Eu não sei, são apenas pensamentos molhados no banho enquanto olho no espelho e lembro-me do meu tempo de menina que fantasiava o ano 2000 como o ápice do autoconhecimento.

Não seria a tecnologia e as armas que nos tornaríamos seres evoluídos, seria o não precisar de campanhas para respeitar o direito, opinião e opção do próximo, não precisar de guerras para alcançar a paz, não precisar ressuscitar o feminismo para garantir respeito e reconhecimento da mulher, não seria mais necessário doutrinas, mestres, representantes para nós guiar no caminho da civilização e não precisaríamos da religião para ensinar amar ou temer algo, não seria necessário dizer o que é crime: matar, roubar, perseguir, estuprar, escravizar.

Nada seria dito, pois tudo isso é do nosso conhecimento, nasceríamos repudiando todo ato de violência, todo ato de corrupção e tudo seria seguido sem interesse de redenção ou medo de punição, apenas seria de nossa natureza.

Esse era meu deslumbre de evolução do macaco para o primata, do primata para o homem e homem para a essência alcançando a felicidade que é a sua paz interior. Não é o ter, o ser, o poder é você em harmonia com o todo, com a natureza, com os homens e o universo.

Difícil? Sim! Porém quase ninguém tenta e os que tentam são subjugados, vistos como loucos querendo colher flores no lixão. Nenhuma evolução e fácil e tentar outro caminho que não seja o retrocesso à barbárie é valido.

Neste banheiro entre a privada, o chuveiro e o vidro sujo da janela. Entro em uma reflexão intima e anônima com a humanidade uma conversa com meu eu, buscando melhorar antes que o próximo meteoro chegue a terra. Afinal os Dinossauros foram extintos por muito menos. Já que não posso mudar o mundo e muito menos as pessoas, mudo o que está ao meu alcance e nada está mais próximo do que eu mesma.




Tais Medeiros.

É você olhar no espelho 
Se sentir um grandessíssimo idiota 
Saber que é humano, ridículo, limitado 
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal 
E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial 
Que está contribuindo com sua parte 
Para nosso belo quadro social

06/08/2016

Sessão poema - Parte XVII [Pensa que sou apenas uma buceta?]

Arte: Aron Pereira

Pensa que sou apenas uma buceta?
Engana-se...

Sou pernas também...
E coxas, veias, ventre, sangue, pele e osso.
Sou gente, ser humano.
Coração e mente.
Não somente uma reprodutora por excelência.
Uma lavadeira por descendência.
Um ser sem alma, sem vontades.
Sou tia, sou irmã, sou mãe, sou amiga, sou mulher, sou direitos, sou deveres, sou cidadã.
Sou vida.
Sou sentimentos, pensamentos e amor.
Sou poesia...
E se ainda assim você almejar me resumir.
Pode utilizar a palavra LUTA.
Ela sim, vai me traduzir.


Tais Medeiros

02/08/2016

SOBRE O AMOR E OUTROS RETALHADOS: O amor não sabe esperar... E nem pode. [TEXTICULO 39]

Eu só queria dizer que vou embora. Não adianta pedir desculpa pelas palavras ditas, pelas ações ou não ações. Não tente mais justificar as coisas feitas em noites passadas, em outros dias, outras semanas, meses ou em outros anos. Eu poderia usar aquela frase démodé - Não sei por que insistir tanto nisso? Mas eu sei muito bem por que, foi amor. 

Não se preocupe, não quero nada. Vou sair sem drama, sem lama sem acusações, apenas vou sair desse turbilhão em paz. Afinal não fui eu que perdi, certo que ganhei algumas feridas, mas elas cicatrizam e um dia param de doer.

Realmente querido quem perdeu nesta história toda foi você. Não estou falando que sou um prêmio, sou apenas um ser humano com seus defeitos e qualidades em guerra todos os dias. Uma coisa é certa, não me condenei como você se condenou viver tanto tempo ao lado de alguém que não ama. Como pode fazer isso com você?

Sabe meu caro! É bom ser amado, mas amar é bem melhor. Às vezes tem o gosto amargo e a gente faz loucuras se passa por idiota, mas existe a certeza que tudo que foi feito foi feito por que você quis, por que você acreditava. Era você e suas vontades, seus delírios não era o outro. É tão doce o gosto da liberdade de poder conceber suas próprias graças e desgraças, não tem dinheiro que pague.

Saio tropeçando desse amor feliz, por que vivi tudo que eu queria viver, tudo que pensei está certo sentir todas as palavras, todas as sensações, fui capaz de me doar para alguém. Se esperei algo em troca? Claro. Quem não espera? Só que não veio e de qualquer forma eu permaneci amando. Hoje a vontade de partir veio me amar e eu como bom amador que sou vou deixa me levar.

Hoje lamento, não pelo fim. Lamento pelo seu tempo perdido. Não faça mais isso com você priorize esse sentimento de dentro para fora e você vai entender o que digo.
Querido! O amor não sabe esperar... E nem pode.



Tais Medeiros.


Não telefone, não mande carta
Não mande alguém me avisar
Não vá pra longe, não me desaponte
O amor não sabe esperar