16/04/2016

O foda é que enquanto o lado esquerdo formiga, o braço direito dói e completando a tríade o peito e a nuca, a vista embaça e o ar falta e você ainda tem que se preocupar em aprender a vomitar sem se cagar. [TEXTICULO 35]

Depois de jogar todo o resto de dignidade que eu tinha no vazo sanitário, triturada com a minha consciência comecei a pensar: E se eu morresse agora? Não que seria um problema para mim, a morte é fácil para o morto, ele entra no estado de repouso, libertação da matéria e do todo, o ruim e o caminho percorrido para chegar até ela, se ao menos eu estivesse dormindo ou estivesse doente, essas doenças do corpo não dá alma, a alma virou lama há muito tempo. Até esse momento de mal súbito, minha saúde estava um primor. Que diabos seria o causador da minha morte? O álcool? Tabaco? O vício em remédios? Seria um "pirepaque" alérgico já que tudo que eu gosto de comer ou usar me ofende, tenta me matar. Nesta lista incluo alguns homens que tropiquei pelo caminho.

O foda é que enquanto o lado esquerdo formiga,o braço direito dói e completando a tríade o peito e a nuca, a vista embaça e o ar falta e você ainda tem que se preocupar em aprender a vomitar sem se cagar. Por mais que sua barriga fique em movimento de translação e rotação tornando instantes em um dia, você tem que se precaver, porque caso morra não quer ser encontrado afogado na privada em meio ao vômito e a merda.
 
Já vivi na merda a vida inteira, morrer nela é muita maldade divina. Para vocês verem, a vida não é nada, penso que a vida é um acidente no meio da morte. Sabe? Você está morto há muito tempo e de repente cria vida, como se fosse um Big Bang então nasce às buscas, os sonhos... Somos movidos por essas coisas, até quem alega não querer nada desse mundo é movido por esses desejos do ser de ter, e tudo requer trabalho até ser nada exige trabalho. Sempre existe o desejo de algo, eu sempre tenho desejo em demasia deve ser por isso que me encontro aqui, por querer viver tudo antes de voltar para o estado natural, à morte. 

É desse ângulo que filosofo do chão, quase inerte olhando a porta, nunca parei para pensar nisso antes agora me parece uma teoria muito coerente. Somos um grande nada mesmo, agora pouco eu estava lá, no salão senhora de si, em meus desejos de rainha da noite e, agora? Não consigo ficar firme nas próprias pernas e ao invés de está sentada com os meus falando de esquerda e direita, coxinha e mortadela, buscando parecer inteligente vivendo o intervalo da morte, estou aqui tentando não cagar enquanto vomito. 

Os sintomas da morte apavoram e torturam. Você sabe que é a única certeza que temos, mas não aceita quando ela bate na porta do banheiro. De repente um sopro de vida consola em meio ao caos, você dá uma "melhoradinha" e quando pensa que é só lavar o rosto e voltar para mesa, eis que me encontro abraçada com a privada novamente. Será a famosa melhora da morte? Entre um vomito e outro me lembro de uma amiga, acho que sempre nos lembramos de algo ou alguém quando estamos de frente da insegurança de viver, o “filmezinho” que dizem passar na mente enquanto Hades dar instruções ao barqueiro, ela me disse uma vez... 

- Não gosto de vomitar, mas quando o faço me dá uma sensação de alivio. Sinto a mesma sensação quando rompo com alguns silêncios impostos a mim. Quando você engole tanta coisa dos outros e em um breve momento solta tudo, tudo que te oprime e entristece todos os pensamentos mais sensatos ou os mais loucos, depois você se sente leve. Coloca para fora tudo aquilo que lhe fazia mal. Sabia que você pode conquistar alguns inimigos em um desses vômitos de pensamentos? É um risco a correr, mas a sensação é impagável. 

Então entro no sono dos mortos quase em transe com essa frase a gritar em minha cabeça... 

- Vômitos de pensamentos.

A morte tem estágios, acredito que entrei no estágio do arrependimento e olha que vivemos dizendo que não nos arrependemos de nada, passamos a vida fazendo discursos falhos, pensando que tudo muda menos a gente. Estou arrependida neste momento de não ter tido vômitos de pensamentos. Falar para um monte de gente um monte de coisas que me engasgam agora. Queria ter dito à racional humanidade que ela é desumana, hipócrita, suicida e cheia de falsas verdades. Muita gente se achando deus, juiz, salvador, certos de tudo, mas nenhum filho da puta aparece neste banheiro para me salvar... 

Queria também ter dito para alguns malditos que eu os amava. Agora me pego na dualidade da passagem. Morre não morre, raiva e saudade se misturam como limão e cachaça. Eu já não sei mais o que pensar... Os olhos descansam, porém o coração continua batendo no compasso do infarto. Uma leve paralisia. Morri? Não. 

Não existia luz no fim do túnel. Será que eu devia me preocupar com isso? Acho que não... Ainda estou aqui, se não vi a luz deve ser porque condenada já estou, condenada ficarei a ruminar o vômito de pensamento.
Triste quando nem a morte lhe quer ou lhe dar segurança. Mas ela compacta toda uma vida em instante e, você que é o animal no alto da cadeia alimentar fica à mercê de uma porta a ser aberta...

Tais Medeiros. 


Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas... Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...

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