24/03/2016

A música chegou aos meus ouvidos, uma balada leve, Marina Lima, e como a mesma diz: “É festa no outro apartamento.” Eu que já alguns dias não ponho meus olhos na rua, para socializar, viver ou amar me peguei pensando. - Puta que pariu! O que esse vizinho comemora? [TEXTICULO 32]


A música chegou aos meus ouvidos, uma balada leve, Marina Lima, e como a mesma diz: “É festa no outro apartamento.” Eu que já alguns dias não ponho meus olhos na rua, para socializar, viver ou amar me peguei pensando.

- Puta que pariu! O que esse vizinho comemora?


Reclamava por inveja, por não ter vontade de me divertir com outras pessoas, na verdade, apenas ando me divertindo comigo. Sozinha, sem estranhos ou conhecidos no ninho. Apenas livros, masturbação, cigarro e devaneios, intercalados entre goles de café e destilados. Talvez aos olhos dos outros eu seja uma fracassada aos meus, em paz.

Então algo perturba minha paz, sou arrebatada pela curiosidade, e já faz tempo que não sinto essas coisas, as pessoas do dia para noite deixaram de me interessar. Entre pessoas e bichos fico com os livros e uma vista nas redes sociais só para ter com que me indignar. Lamentável, até a sensação de indignação a que venho tendo é manipulada, tempos mornos. Porem a curiosidade era de saber...

- Quem vive no poço ao lado?

Já sobrevivo aqui há anos, e nunca tive interesse de saber desse ou daquele vizinho, o que me faz entrar em contradição, não foi do dia para noite que deixei de ter interesse pelos outros, penso que sempre foi assim. O fato de mostrar que me importava, de ser educada, amável, foi apenas mais um protocolo implantado na minha realidade introspectiva.

De qualquer forma hoje essa curiosidade bateu diferente. Eu realmente me importava em saber quem era aquela pessoa e o que ela comemorava? Estava comemorando, havia gente tinha risos e falatórios, se fosse apenas Marina Lima, eu pensaria que era uma bad, então acho que não me incomodaria.

Encostei minha cadeira na parede que dividia nossos poços, me servi do um gole de vinho e acendi um cigarro. E me pus a escutar a tal felicidade alheia. Nada se entendia, era muita informação, política, música, moda, tragédia, amor. A segunda sensação que senti foi de frustração.

Não há nada de novo nessa tal felicidade. Os discursos eram os mesmos, eu já tinha ouvido eles nas mesas de bares e festas que frequentei, as piadas de internet, estava tudo igual a tudo, me senti nas minhas noites no mundo, tudo sem alma, o mais estranho é que nunca ouvia a voz do senhor do nada, anfitrião da boêmia.

- Que merda, pensei que algo aconteceria, nada mudou. É como disse um amigo...

“As religiões, as putas, a música e as artes cênicas, tudo estava vazio”.

E eu acrescento meu amigo, os corações também. Encontrei os culpados por isso, seres humanos. Seres humanos vazios não produzem nada, não criam nada, apenas massificam o nada. Não pode ser... Eu me interessei, eu me importei não é possível que eu esteja ruim assim para me distrair das minhas leituras para cuidar da vida banal do vizinho? Teria sido mais fácil ligar a TV naquele BBB do diabo.

Estava absorta, tentando entender por que a gente vive tentando sair da casinha, alimentando desejos que coisas novas aconteçam. Eu continuo aqui a fumar e pensar como estive todas as noites e igual a todos não chego a lugar nenhum.

Toc toc toc...

Alguém bate na porta. Não vou atender, certeza que é engano, meus amigos não ousariam me incomodar a essa hora e, a família ligaria se fosse má noticia, só ligam por esse motivo. As pessoas só ligam para as outras no caos e, aí está mais uma teoria para reflexão do meu amigo. Falta um caos bem fudido para revolucionar a natureza do homem, as artes, a religião e tudo mais.

Toc toc toc...

Abro a porta de supetão, louca para quebrar o protocolo da boa vizinhança e dar na cara de quem me incomoda, na verdade queria eu entrar no poço e espancar o verme que me deu curiosidade de olha pelo o buraco da fechadura, de querer sair do meu mundinho.

- Quem é você?

- Seu vizinho do lado?

- O que quer?

- Estava em casa com alguns amigos...

- Percebi...

- Desculpe o barulho não te deixa dormir?

- Não é isso... Eu não me importo. E eu durmo tarde.

- Percebi...

- Então, o que quer? Gelo? Coqueteleira? Vaselina?

- Não...

- Quer me convidar para ir lá? Desculpe não posso. Estou em um momento que não suporto esse tipo de socialização que as pessoas querem falar de mais, ser sempre mais e na verdade são bem menos.

- Então se importa?

- Com que?

- Com todo esse vazio...

- Que vazio?

- Você também não sente? Eu estava em casa rodeado de gente bonita, boas bebidas, mas não conseguia interagir, era tudo igual. Então lembrei que vivo há algum tempo aqui e nunca falei com você. Que nunca me importei, então arisquei e vim.

A terceira sensação da noite. Não estou sozinha nessa crise existencial, todo mundo deve está passando por um momento, mas existe alguns tão covardes que fingem que nada acontece se entorpece de clichê e vem  foder com a cabeça de gente igual a nós. A vida é assim, cheias de nuances.

- Quer vinho?

- Aceito...

- Vamos conversas, sejamos novidades.


Tais Medeiros. 

Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

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