24/01/2016

Sessão poema - Parte VIII [ Montes de clitóris e espasmos de furor.]


  Ilustração de Guido Crepax


Desculpe a demora amor...
Me perdi na vida, nesses caminhos sem saída.
Daqueles estreitos e apertados.
Quase sempre úmidos, guardados, esperando para serem descobertos.
Caminhos de "mãos" únicas que quase sempre nos leva para inferno.
Dizem eles...
Instigando minha curiosidade, prometendo o êxtase.
Percorri suas estradas em relevo.
Terra árida, corpo árido lascivo.
Montes de clitóris e espasmos de furor.
Aventurei-me em seu templo inundado de amor.


Tais Medeiros. 

20/01/2016

Sessão poema - Parte VII [ O canto de Medeia]

Tem alguém ai?
Além dessa distância que separa os mundos?
Além dessa ausência que um dia pensou ser presença?
A felicidade fere a decência, a moral, sua e de outros.
O que somos capazes de fazer para ter um instante de felicidade?
O que? O que?
Gritos desesperadores, grito inutilmente.
TEM ALGUÉM AI?
...
Abandonada...
Usada...
Abusada...
Humilhada...
Ferida...
Substituída.
...
Epílogo da vida.
O saber que a felicidade não ensina nada para ninguém.
É a dor que traz em suas malas a cartilha para saber viver.
Alquimias que buscam as curas para todos os males.
A batalha teve outro fim, mas a guerra não terminou.
E o silêncio de frente ao abismo não acalma.
Não pediu nada?
Todos pedem, os olhos pedem.
Dizem tudo que não soube dizer, revelam tudo que tentou esconder.
Não me venha com migalhas de culpa.
Feliz agora?
Levou todo o ar que os pulmões tinham.
Levou a alma, terra, ar, água.
Levou até minha limitada sanidade.
...
Os personagens se desfizeram.
E não há corpos, mentes e olhos que sacie.
Esse maldito cobiçar de olhos.
Olhos porta da alma...
Que alma?
Penando entre escombros de guerra.
Realmente não existe nada de novo no front.
Não há espera na plataforma.
O ultimo trem partiu deixando apenas névoa.
O passado não tem como esquecer.
É meu templo sempre revisitado.
Não fiz morada, fiz aprendizado.
A final, não é agora que eu sou um bom soldado?
Aquele que deixou o capitão sair ileso, vencedor no campo de batalha.
E eu alvejada pelos bombardeiros tive que estancar feridas amargas.
Forte, seja forte... Guerreia como uma mulher... Mostre essa face sempre altiva.
Não quero ser exemplo para ninguém.
Não me vista, não sou artigo da moda, não sou peça íntima.
O íntimo custa caro...
...
No auge do meu pessimismo estou ciente que tudo pode piorar.
Nada almejo dessa tragédia, nada me interessa levar.
O que entrar é lucro o que sair é gozo.
Em meu jeito mesquinho de Colombina...
Em meus delírios de Ofélia...
Em minha luta sufragista.
Sigo em frente, enfrente.
Firme em minha marcha.
O levante das trincheiras.
Uma dose forte de whisky, um gargarejo com gengibre.
Garganta limpa de coração em punho, único juramento.
Nunca mais calar meu canto de Medeia.


Tais Medeiros



Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor

03/01/2016

Da série - Cenas Natalinas e OutRAS bRISaS dAs “Passionais” [TEXTICULO 28]


Estava eu em uma destas tardes entediantes pós-natal esperando umas “zamigas” para tomar um café, isso mesmo que vocês leram... CAFÉ. Resolvi dar uma trégua para fígado e maltratar o estômago, tendo em vista que tomo café como se fosse cerveja. O papo iniciou como todos os papos devem começar nesta época do ano.

- Como passaram o natal?

- Eu? Numa depressão horrenda, não pude viajar então visitei algumas ceias vizinhas. Umas comi até pedir para morrer, em outra fui mal recebida, tem gente que realmente nem o natal salva.

- Eu odeio o natal, não pelos motivos clichês de festa capitalista blá, blá... Também não o odeio pelas reuniões de família e ter que presenciar a disputa entre os entes queridos, quem esta mais fudido e injustiçado pela vida. Em minha árvore genealógica a competição não é ostentar bens, mas as sete pragas do Egito, quem é mais Maria do Bairro, senhora das depressões eternas.

- Credo amiga... Eu também odeio o natal, mas pelo fato de que eu já comi minha casa inteira, pequei mais pela gula nestes dias do que por fornicação a vida inteira.

- Que jeito horrível de se condenar ao inferno amiga...

- E qual seria um jeito bom para se condenar?

- Você não precisa se preocupar com isso, Deus está te devendo, ou você esqueceu que passou metade de sua vida dando 10% do seu salário para sua ex-igreja?

- Verdade. Vergonhoso aquele tempo, eles podiam me ressarcir ou me dar algum adiantamento, fim de mês, fim de ano, fim de tudo menos da bad.

- Eu queria tanto pular o fim de ano e avançar para parte que tomo vergonha na cara e mudo minha vida. Sinto-me castrada dentro da minha própria casa, não pularei as sete ondas por que meu pai surta com a ideia de viajar sozinha.

- E eu não pularei as sete ondas por preguiça...

- Para vocês verem, sempre nos falta algo, uma coragem, outra vergonha na cara e eu dinheiro.

- Podíamos dominar o Acre e fazer nosso país. Ninguém ouve falar do Acre mesmo, quem vai reivindicar?

- Nossa, como seria nosso país? Qual tipo de governo seria? Seria um Taistocracia? Uma terra de arte e subsistência? Trocaríamos habilidades ao invés de dinheiro? Não, acho que seria mais como uma comunidade hippie, beatniks.

- Imagina um país dominado por mim. As pessoas de boas, tudo fracassada, mas de boas e tudo que exigisse muito trabalho aborta.

- Realmente essa época do ano mexe muito com vocês, já não estão falando nada com nada. Acho que é o café é melhor irmos para um bar.

- Pensei que a pauta hoje era atacar a Gastrite?

- Pensei melhor, melhor estragamos o resto do ano e o pouco de dignidade que temos. Augusta?!!!

- SIMMMMMM

- Mas você não nos disse o porquê odeia o natal?

- Sei lá... Acho que depois que a gente crescer e se depara com a realidade a magia acaba, as pessoas estragam tudo, hipocrisia humana. Ninguém realmente liga para o que significa o natal o que importa é muito luxo no presépio. Ao menos rendeu quatro dias de folga sem direito a ressaca.




Tais Medeiros



Três crianças sem dinheiro e sem moral
Não ouviram a voz suave que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Ela talvez tivesse um nome e era: Fátima
E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou
E no terceiro dia ninguém ressuscitou