30/10/2015

Dra. Diaba receitou. Menos pudor e mais amor; Menos culpa e mais força. Receitou dosagens fortes “Stonianicas”. Receitou exibicionismo contra o tédio. [TEXTICULO 25]


Anos atrás minha mãe preocupada com esses meus distúrbios emocionais, sociais e mentais pedia-me para procurar um psicólogo, fazer uma terapia para controlar tanta raiva, oscilações de humor e personalidade.

- Eu realmente me preocupo muito com você. Você tem muita coisa ai dentro... Sabe? Eu olho para você e vejo um míssil que caiu e não explodiu, mas não está desarmado e a qualquer momento vai explodir.

Mães! Dramáticas e com cada analogia que realmente assusta, como nunca é bom subestimar as previsões de uma mãe eu fui a tal da psicóloga. Cheguei à sala, ela me olhou, eu já tinha ensaiado que nada ia falar, porém esse povo é bom ou eu sou muito dada, em questão de minutos já estávamos papeando como se fôssemos melhores amigas.

Eu gostei dessa parada,  legal conversar com alguém que não está envolvido na minha história, não tem a mínima ideia do que aconteceu até aquele momento de entrar na sala. Realmente eu não sei como funciona a cabeça de um psicólogo, apenas sei que normal ele também não deve ser, deve ser um louco, que encontrou no ato de escutar maluco um consolo. Toca aqui “psica” tu não és pirada sozinha.

Nossos encontros estavam acontecendo semanalmente e para mim estavam rolando bem, fazia atividade, falava sobre coisas. Eu me sentia em um ambiente de bar, mas sem bebida, apesar de quase sempre, eu chegava numa ressacada do cão. Ela conseguia me fazer sair de casa numa ressaca de mil bacanais, até que um dia ela pôs tudo a perder, quis me empurrar à receita azul.

- Como assim psiquiatra? Eu estou muito bem aqui com você. Não cheguei ao ponto de ficar babando e nem jogando pedra na lua. Pode parar de me empurrar para o lado negro dos profissionais da mente.

- Não seja dramática... Você tem uns distúrbios depressão, bipolaridade, complexo de inferioridade, complexo de perseguição...

- Rá!!! Sou um poço de complexo agora? Se eu tenho tudo isso as sessões com você já estão pondo isso tudo sob controle
.

-Não mesmo. Eu me tornei apenas ouvinte para você. Você vem aqui me conta todas as mazelas, sai dizendo que na próxima semana será diferente e volta com fatos piores. Precisa de medicação de um trabalho conjunto entre psicólogo e psiquiatra. Entenda você é como míssil que caiu e não explodiu, mas não está desarmado e a qualquer momento vai explodir.

- Minha mãe veio aqui?

- Como?

-Ela veio aqui? Te ligou? Sei lá... Fez contato com velha?

- Não. Viu é esse tipo de comportamento neurótico que precisa ser trabalhado, medicado.

- Eu me medico todas as noites.

- Não você se embebeda isso é bem diferente.

- É a mesma coisa. “Terapia da dopação” se é para me dopar, que seja com Whisky e gelo. Francamente psicólogos e psiquiatras já provaram que não dá para viver de cara limpa.

- Aqui está o seu encaminhamento. Se você não frequentar as sessões com um psiquiatra eu não poderei mais lhe atender pelo fato de ser um tratamento incompleto e sem evolução.


Pronto! Até a psicóloga está rompendo comigo. Como assim? E nossas tardes papeando? E nosso jogo de personalidade? Filmes, livros... Pensei que estava tudo bem até ela querer inserir um terceiro elemento em nossa relação, que merda.

- Vou ver o que consigo fazer.

- Vou aguardar sua ligação.

- É vai aguardando.


Sai possuída de lá pela primeira vez olhei o espaço e percebi que era realmente um consultório.

- Quanta ousadia me encaminhar para o psiquiatra, foi só eu baixar a guarda e toma, ela terceiriza o trabalho. Não pedi para me curar só pedi para me ouvir.

Sai de lá e resolvi “angustiar” termo usado para quem vai espairecer na Rua Augusta, a terra dos refugiados, segregados, um amigo ia tocar “Qasualmente” então juntei a sede com a sede e fui ver. Encontramo-nos, bebemos e falei minhas lorotas de sempre foi então que ele me apresentou aquele ser que só com um olhar e uma tentativa falida de me beijar já roubava minha alma.

Ágatha... Esse era o nome... Ela era alta, parecia uma deusa exótica de alguma tribo canibal, ou melhor, parecia um diabo ou sua forma feminina, envolvente, sensual e intensa pronta para extinguir os seis pecados capitais e legalizar a luxúria. Os dez mandamentos se fossem abolidos, aposto que seria ela a abolicionista. Amor ao primeiro drink, me tirou para dançar e eu que nunca me achei um ser sexy, uma mulher voluptuosa me senti grande, linda e desejada quase iluminada ao lado dela ao som desesperador da música câncer da banda “Qasual”

- Essa noite está diabólica. Desculpa pela tentativa de beijo é que pensei que você também era bissexual, afinal quase todas as garotas  que o "Qasual" me apresenta são. Eu e essa mania de achar.

- Tudo bem. Grande maioria pensa isso, mas espero que isso não seja problema para continuar a dividir companhia?

- Normalmente eu sou anti-social, não gosto muito de aproximação com estranhos, mas com você não consegui, acho que nossos demônios se bateram.

- Eu devo estar muito endemoniada mesmo que até a psicóloga falhou em me exorcizar.

- Psicóloga? Eu passei um tempo, gostava das sessões.

- Eu também, mas como tudo na minha vida tem que ser complicado, ela resolveu complica,  me encaminhou ao psiquiatra.

- Então seus problemas acabaram...

- Você é psiquiatra?

- Não sou estudante de psicologia, mas posso ser sua psiquiatra.

- Acho que estamos bêbadas demais.

- Não mesmo... Nossas consultas serão via Whatsapp a hora que você quiser e no meu consultório.

- Onde é seu consultório?

- O bar mais próximo de você. Não precisa se preocupar, eu tenho experiências, sei lidar com pessoas iguais a você que são iguais a mim. A gente enlouquece pra viver ao contrario daqueles que se dizem normais. Nos despimos para amar. Nós colocamos máscaras para sobreviver em sociedade, só que é bom ter um lugar para arranca-las brindar aos defeitos as fraquezas. Todos nós temos fraquezas, alegrias, tristeza, loucura. Nós sabemos usar isso e é isso que nos torna loucos diante do mundo.


- G-OVÁ onde fui me meter? Eu realmente não sei apenas sei que gosto disso.

Dra. Diaba receitou.

Menos pudor e mais amor;

Menos culpa e mais força.

Receitou dosagens fortes “Stonianicas”.

Receitou exibicionismo contra o tédio.

Ela disse:

O diabo? Coloquei de férias, sou o Satanás de belos saltos e no meu consultório não são permitidos arrependimentos, aqui não se vira a página, queimasse o livro. Sirva-se de Whisky e dance no divã o consultório está aberto.

Internei-me nesse “Satãnorio” não me livrei dos fantasmas da mente consegui coisa melhor... Achei com quem enlouquecer em paz.

Tais Medeiros


“Não me venha com coisas sem almas” 

Thali Gonçalves



Escrever é o ato de exorcizar os demônios de quem escreve e de quem ler. [TEXTICULO 24]


Eu escrevo desde 14 anos de idade. Maltratando há gramática, liberando pensamentos, sentimentos. Por isso é difícil responder como consigo escrever. Antes era uma tristeza que ganhava sutilmente existência no papel, nada pensado apenas sentido. Não gosto muito das escritas daquela época, ás revejo para lembrar fatos um diário em versos, algumas coisas uso em textos novos e outras apenas sinto vergonha de ter escrito. Às vezes penso...

– E se eu não tivesse queimado os diários em uma tentativa falida de esquecer o passado? Acho que iam me render bons textos, afinal dos 14 aos 18 muita água rola embaixo dessa ponte. 

Não devia ter parado com os diários, eles mostram nossa evolução. Vejo isso confrontando os textos de hoje de ontem e de 11 anos atrás. Hoje o que escrevo é vivido, sentido e pensado. Penso muito nas baboseiras que são publicadas, podem acreditar nisso? Perguntaram-me uma vez.

- Para quem você escreve? Para você ou para os outros?

Parei e pensei...

- Eu sei por que escrevo. Mas sei para quem?

Fiz essa reflexão e fazendo o panorama de quando comecei rabiscar descobri. Ainda escrevo pelos sentimentos e sensações, porem não, mas para mim. Escrevo para qualquer pessoa que queira ler, mesmo sendo uma leitura banal, caso não fosse isso não tornaria público. No tempo de garota escrevia sem a pretensão de ser lida apenas era meu mundo.

Agora quero que me leiam que goste ou não. Por que o meu mundo transbordou, expandiu e quem faz o escritor é o leitor não adianta falar ao contrário. Você pode ser um sujeito criativo, mas se ninguém ler, não se identificar ou incomodar, você perde a motivação da escrita. Pôs no papel é para ser lido. Cheguei a essa conclusão.

Não íamos materializar pensamentos, opiniões, gostos, brisas e sentimentos por nada. Sempre existe o desejo que alguém ache o caderno, que alguém click no link. Alguns escritores podem ir contra minha ideia, mas eles lá no fundo sabem que essa é a verdade.

O importante é que nunca falte vivência, sentimento e leitor para um escritor.



Escrever é o ato de exorcizar os demônios de quem escreve e de quem ler.

Tais Medeiros.

Nunca se vence uma guerra lutando sozinho
Cê sabe que a gente precisa entrar em contato
Com toda essa força contida e que vive guardada
O eco de suas palavras não repercutem em nada