22/05/2018

Sessão Poema - Parte LXXII [Eu quero ver. Antes que me ceguem.]

Arte: Frida Castelli


Eu quero ver.

Quem vai para mundo vestido si.

Quem tem coragem de se assumir.

Seus defeitos, suas dores e dissabores.

Quem tem coragem de tirar as máscaras.

Reconhecer de onde veio.

E não sabe ao certo para onde vai.

Quero ver quem ama...

Apenas pelo fato de amor.

Sem ilusões de filtros, de status sociais.

Ama fora da rede, para além da posse.

Quem consegue está com alguém sem torna-lo um prêmio de conquista?

Um objeto, desejo vão.

Quem consegue transpor as crises?

Aceitar a bagunça que pode ser o outro.

Sem julgar o passado, sem controlar o presente sem temer o futuro.

Eu quero é ver.

Quem é bom de graça.

Sem se apoiar em religiões ou em códigos.
Civis ou criminais.

O amor de deus não cabe dentro de uma religião, dentro de livros.

Ele se materializa no ar, na terra, na água, na luz...
em um abraço.

Se existe o sagrado!
ele é a natureza.
É o ser com o outro e não sobre o outro.

Não servir, nem se curvar.

É olhar de igual.

Sem precisar pôr os joelhos no chão para livrar-te do pecado.

O pecado foi criado para separar mundos.

O paraíso e o inferno são cabrestos.

O Sagrado e o profano, o bem e o mal.

Tudo criado para educar pelo medo.

Tudo criado para nos dividir.

Delírios de superioridade.

E a gente só existe aqui.

Somos o agora.

Quero ver quem consegue viver de cara limpa, alma leve e peito aberto.

Quem consegue sair desse ciclo vicioso...
chamado sistema.

Dessa sede insaciável por poder.

Dinheiro!!

Quem se vende menos?

Quem súplica mais?

Eu quero ver.

A quem interessa vazio.

Quem luta por todos mesmo sem abrigo;

Quem beija os lábios mesmo sem fuder.

Eu quero ver.

Quem consegue olhar e gostar do que ver diante do espelho.

Quem põem a cabeça sobre o travesseiro e dorme tranquilo.

O sono dos justos, ou será, dos injustos?

Eu quero ver.

Antes que me ceguem.

Tais Medeiros.

15/05/2018

Somos orgasmos múltiplos, declarações de amor. [TEXTICULO 77]

Entre um baseado e outro nossos corpos relaxam. Entrego-me a cama e deixo esse mesmo corpo afundar entre os travesseiros. Às vezes a mente entra em paz, às vezes vejo girassóis no teto, girando para mim. Lembro-me porquê gosto tanto deles. Sua cor amarela representando a luz, a força e a áurea e seu fundo escuro me remete a escuridão dos seres. Estamos sempre radiantes para mundo, distribuindo sorrisos, ironias, força a imagem de senhores de si em uma plenitude inabalável. Vendemos está imagem. Queremos que acreditem, queremos acreditar que somos tão foda assim. Contudo lá no nosso interior, onde os raios de sol se perdem, vemos talvez nossa essência... Dor.

São tantas magoas, tantas feridas mal cicatrizadas que a gente apodrece e apodrece o outro. Os girassóis quando estão sem os raios de sol procuram em seus pares a luz que lhes faltam, nós ao contrário dele não trocamos energia, não cuidamos um do outro, não nos tornamos um campo que emana beleza e luz. Apenas sugamos da mente, do corpo da beleza do outro a fim de nos sentimos bem, superiores ao menos por alguns momentos. Satisfação instantânea.

Entre essas brisas melancólicas eu olho para ele, que subitamente se põem por cima de mim a acariciar meus cabelos. Raros esses nossos momentos também somos instantâneos, não somos girassóis. Desvio meu olhar, triste por não sermos exceção, somos a regra do mundo moderno do mundo em desapego. Ele me pergunta com a voz mansa.

- Está ai? O que se passa nesta cabeça em combustão?

- Seus olhos.


(Respondo.)

- Você e a brisa dos olhos...

Sempre falo de olhos, mas não são os formatos, não são as cores é o olhar. A forma que eles me olham, que fitam os meus que estão quase sempre tortos, quase sempre de ressaca. Já me olharam de tantas formas e (des)formas, alguns olhares chegaram a molhar minhas calcinhas, mas outros chegaram a me rasgar a pele tão fundo que até hoje sinto o cheiro de sangue. Meu sangue.

Mas confesso que olhar dele sempre me foi vazio. Seus olhos negros trazia a imagem de um grande buraco, mudo, sem sensações, sem vida. Tão normal que causava incomodo. Muitas vezes entre as viagens etílicas eu me via vagando nessa escuridão, solta no universo, desprendida, sem lugar para pisar. Entretanto nossas conversas eram boas, eu não precisava ter opinião sobre tudo, não precisava explicar teorias, não precisava ser inteligente e nem gostosa, não tinha que provar nada. Eu só precisava está ali, mesmo que minha mente se ausentasse por alguns instantes.

- E o que têm meus olhos?

(Perguntou ele.)

- Estão surpreendentemente cheios, parecem preenchidos.

Sim! Após um ano dividindo a cama, o copo e o cigarro, eu vi pela primeira vez em seus olhos um desejo voraz, uma vontade hipnotizante.Senti alma naquele corpo quente que começava a passear sobre mim. Quando o tesão se mostra no olhar o corpo ganha tônus e a vida ganha ritmo. Uma coisa é certa, tão certa quanto a morte - tudo precisa ser feito com tesão. Arrisco dizer que esse é o principal ingrediente da tal felicidade. As coisas feitas com tesão tende a dá mais certo, pois há uma entrega, uma fé e isso contagia e satisfaz. Não faça nada se houver tesão.

Eu me curvei aquele olhar preenchido de tesão, ao seu desejo. Seu rosto acaricia o meu, sua boca beija a minha, lábios secos que aos poucos vão se umedecendo. Sua língua passeia pelos meus ouvidos, pescoço, busto, abocanha meus seios pequenos, brancos de mamilos amarronzados, os engoles os lambuza. Morde minha barriga lentamente e com as mãos ligeiras aperta minhas coxas, encontra meu ser. Entre minhas pernas me dilata com seus dedos, esfrega-me, toca-me a fundo. Meu corpo se contrai, cai em desgraça suplicando que entre. Quase digo que te amo, abafo gemidos mordendo lenções. Sinto o mundo girar rápido e meu universo fica em silên(cio). Sinto o furor, o clitóris em frenesi. Será esse o verdadeiro primeiro som do universo? Imagens em desconexos se configuram em minha cabeça. Me vejo no meu feminino primitivo minando gozo, regando o mundo de amor.

Entre, por favor, entre.

Vejo girassóis em você, girassóis brotam por todo quarto, pelo meu corpo. Não possuo mais controle sobre mim. Você me controla me transforma, transfere para mim toda sua luz, toda sua energia. Somos campos férteis. Somos orgasmos múltiplos, declarações de amor. 

Tais Medeiros.




Acordo maré
Durmo cachoeira
Embaixo, sou doce
Em cima, salgada
Meu músculo musgo
Me enche de areia
E fico limpeza debaixo da água
Misturo sólidos com os meus líquidos
Dissolvo pranto com a minha baba
Quando 'tá seco, logo umedeço
Eu não obedeço porque sou molhada

19/02/2018

Sessão Poema - Parte LXXI [Seu suor; (meu) Minha saliva; (sua)... Vai!!! Me invade.]

Arte - Apollonia Saintclair


Vamos unir...
A seu fumo ao meu vinho;
O teu corpo ao meu.
Minha boca no seu pau;
Seu pau no meu íntimo.
E nos tornamos um.

Seu suor;
      (meu)
Minha saliva;
      (sua)

E a gente se enrosca, desenrosca.
Se perde entre os lenções, se acha no banho.

Vai!!!
Me invade.
Marcando-me por todas as partes.
Mistura-se a mim.
Sufoca-me enquanto me fode devagar.
Me encha de você.

Seus pelos;
Seu cheiro;
Seus olhos.
Ah! Esse olhar.

Me gruda em sua pele;
Em sua cama, nas paredes.
Por todo este aparamento.
Faz barulho para calar o barulho do mundo, da mente.

Me sente;
Me entende;
Me ama.

Beba-me em pequenos goles.
Mora em mim.
Que eu te deixo ficar...
Hoje, amanhã...
E talvez para sempre.

Tais Medeiros.

14/02/2018

Sessão Poema - Parte LXX [Seja a sua, seja seu.]

Imagem de internet

Faça um favor a você...
Entenda quando você não cabe.
Nas roupas, nos sapatos, nas coisas.
Em vidas... nos outros.
Tudo tem seu tempo;
Ou não é tempo.
Forçar, não irá fazer você caber.
Apenas machuca.
SIGA!!!

Não veja isso como derrota.
Desistir, também é uma qualidade dos sábios...
                                                 dos heróis de si.

Tudo que finda, recomeça.
Traz consigo o novo.
A noite dá lugar ao dia.
A primavera ao verão.
Diante de tanto sol chega também o tempo da escuridão...
O nublado, outono, inverno...
Momentos para reflexão.
O choro dura uma noite, mas cessa pela manhã.
O amanhecer dos seres, fases dos homens.

Reconhecer e permanecer...
Onde lhe cabe bem;
Lhe faz bem;
Onde você é o bem.
Refazer a viagem.
Reconstruir o abrigo.
E acima de tudo...
Não ser dor para ninguém.
Principalmente para ti.

Olhe!
O mundo é tão grande.
Há tantas pessoas, tantas histórias.
passados, presentes e futuros...
Todos passando por algo.
Todos almejando serem felizes.
Parafraseando o poeta das sarjetas...
“amar alguém, talvez seja deixa-lo em paz.”
Seja a paz.
Seja a sua, seja seu.

Tais Medeiros.

12/01/2018

Sessão Poema - Parte LXIX [Devore até ossos.]

Imagem de internet
Eu nunca encontrei quem me matasse a fome.
Que saciasse a cede, curasse as feridas.
Que me fizesse calar boca, emudecer os pensamentos.

Nunca encontrei quem acalmasse o corpo e dosasse os desejos
Quem me fizesse cultivar por muito tempo sonhos
Sonhos a dois.
me parece sempre a “três."

Não importa!!!

Sou eu, na maioria das vezes meu par
Sempre há cheiros nos dedos, líquidos entre as pernas...
                   minando entre os pelos, meu ser.

Os sentidos atentos.
E as mãos sempre ágeis.
Tocando fundo a tal felicidade.

Nunca encontrei alguém que fosse único.
Que me presenteasse com a normalidade dos humanos de "bem".

Graças aos deuses...

Estou correndo dessa normalidade.
do sagrado que tantos falam
duas coisas que nunca encontrei.

Almejo performance de movimentos.
Do encontro com o homem animal.
Sem paradigmas;
que se livram das máscaras
deixam marcas
Nunca encontrei quem me marcasse a carne. 

Os diabos saltam em meu caminho.
E eu me agarro a todos, me esbaldo, me condeno.
E se existe o sagrado.
Eu santifico a todos.
Pois minha peregrinação continua.
Encontrar aquele que me devore até ossos.

Tais Medeiros.