21/06/2018

Contos da Cadelinha 00 [TEXTICULO 78]

Eu cruzei a porta do seu quarto que ficava nos fundos da casa de sua mãe. Era um lugar pequeno, bagunçado, mas de certa forma aconchegante. Abri a porta com dificuldade, estava carregando nas mãos seis garrafas de cerveja, uma de vinho, e em minha cabeça eu carregava duas doses de “bombeirinho” e quatro cervejas. Entrei dando graças aos deuses por ter conseguido chegar sem mijar nas calças. Corri para o banheiro e acho que fiquei uns 10 minutos só enxotando toda a água do dia e as meras horas de felicidade promovida pelo álcool. Ele estava sentado na cama, já sem camisa, fumando e olhando para chão. Caminhei até ele lhe dei um beijo e uma cerveja.

- Dia difícil!

- Nem me fala, só merda atrás de merda.

- Eu que o diga. Você ao menos tem subordinados, eu sou a subordinada.

- Vamos discutir sobre quem se fode mais?!

- Não. Você perderia.

- É verdade. Você tem uma veia apurada no drama.

- E na comédia também.

- Atrizes...

- Tenho uma ideia.

- Não. Não vamos matar o presidente, pode tirar isso da sua cabeça.

- Não seja ridículo... Apesar de ser uma ideia tentadora, porém eu passo a vez.

- Então me diz. O que se passa nessa sua cabecinha subversiva minha anarquista?

- Ahhh! Estou pensando que devemos fumar nossos cigarros, tomar nossos drinks e ouvir um bom som olhando para nada, sem pensar em nada, sem fazer nada.

- Apenas contemplar o nada?

- Isso... Contemplar o nada. Somos um nada perante a esse universo, não é?!

- Sim. Seria como uma viagem para dentro do nosso eu?

- Ou só preguiça mesmo, talvez um pouco de alcoolismo.

- E depois?!

- A ideia era não pensar em depois.

- Mas tenho certeza que você já pensou.

- Sim.

- Conte-me mais do seu plano infalível "bonche".

- Mais é claro camarada. Depois dessa contemplação toda, você me dá um belo banho quente e relaxante.

- Não, não, não. Você que me dá um banho quente e relaxante.

- Direitos iguais meu bem. Para se justa, a gente se banha e fode bem gostoso embaixo da água.

- Podemos ir para o banho agora?

Ele levantou e se, pois, em minha frente, tirou a calça. Esperou eu tomar o último gole da cerveja. Secou um pouco do liquido que escorrerá em meu queixo.

- Não se interrompe alguém que bebe. Ele me disse.

Como um cavaleiro me pegou pelas mãos e me conduziu até seu banheiro. Entre seus beijos e apertos tirou minha roupa e água quente banhava nosso corpo. Ensaboou-me as costas e fui sentindo seu pau entrar, tão duro, tão lindo. Me apertou as coxas, a bunda, colou seu corpo no meu corpo, pousou sua boca em meu ouvido, ainda acariciando minha nuca, tão carinhoso e singelo me disse: Eu te amo, sua maluca. Eu entre gemidos e um sorriso faceiro, a alegria que sentia não cabia mais em mim. Me voltei para ele e disse:

– Seu cretino...

- Não dá para ser romântico com você.

Me beijou ferozmente, mordendo os lábios e os seios, me virou subitamente, bateu em minha bunda, apertou-me com vontade e me curvou. Meteu seu pau como bicho selvagem no cio. Me prendeu pelos cabelos, parecia que cavalga em mim. E eu diluía como água, as pernas bambas e o sexo latente. A visão de suas pernas peludas, o remexer dos meus quadris, o vai e vem dos meus pequenos seios, o barulho dos nossos corpos metendo-se entre a água ressoava pelo o banheiro inteiro.

Eu me excitava cada vez mais, o seu gemido, as suas palavras profanas, o eco do eu te amo, dito tímido, dito baixinho, mas com coragem. Eu não queria que ele parasse, mesmo afogando-me no chuveiro. Queria sentir seu pau duro amolecer dentro de mim. Que a água toda se molhasse no nosso gozo. E que a gente escorresse, escorresse por entre o ralo tornando-se um só. Tomando os rios, os esgotos, as torneiras o mar. Nosso amor embebedando o mundo inteiro. Às vezes vale a pena ter dias difíceis.




Tais Medeiros.

Dia ímpar tem chocolate, dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate, dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor, na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor, eu de noite sou seu cavalo

14/06/2018

Sessão Poema - Parte LXXIII [Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.]

Arte: "Outra Favela" - Rodrigo Guimarães.


São gatos, cachorros, carros e motos
A vizinha que lava louça a espera de algo, a espera de alguém.
Barulhos noturnos de uma periferia que insiste.
Insiste em existir, em viver.
Nunca existe a benção do silêncio.
Guardamos ele para nossos mortos.
Sempre movimento, planos entre vielas.
E o poeta em seu quarto escuro matuta uma salvação.
Sabe dos legais e ilegais.
Mas não degenerar dos seus.
Criminoso é o Estado.
Que se vende como uma puta barata aos senhores.
Donos de escravos assalariados.
Sucateia serviços, sucateia vidas.
Privatiza oportunidade, parcela sonhos em uma eterna dívida.
Políticas excludentes.
Não contemplam quem batalha duro para existir. 

“Nois” não quer só existir.
“Nois” quer viver.

Temos fome e não é só de comida.
Não é só de consumo, poder aquisitivo.
É de voz, de olhar, de cultura de um abraço.
Finalmente uma identidade brasileira.
Na periferia também tem seu lado bom.
A gente se olha, se sente.
O morro ao inverso.
Ele vem de baixo para cima.
Ladeiras, escadões.
Canta meu morro! CANTAGALISTÃO.
 
Há precariedade nos acessos.
Distante das suas modernidades de bicho homem.
Homem do centro, do metrô, do asfalto.
Casas corretamente arquitetadas.
Descendentes de Europeus em suas Naus contemporâneas.
Taxando a nós de selvagens.
Por não (ter) como eles.
Culpando-nos por viver assim, por estar aqui. 
Mas índio/negro tem terra;
índio/negro tem cultura, 
índio/negro tem vida.
Tem história... resistência.

Somos a herança dos índios e negros mortos, explorados.
Que construíram essa terra.
A custa de muito suor, sangue, dor e lágrima.
Por eles viemos cobrar a indenização.
Por bem ou mal. 

Existe um lugar para nós.
E não podem nos limitar, nos subestimar, agredir.
Porque apesar do nome ser quebrada, somos inteiros.

Tais Medeiros. 

22/05/2018

Sessão Poema - Parte LXXII [Eu quero ver. Antes que me ceguem.]

Arte: Frida Castelli


Eu quero ver.

Quem vai para mundo vestido si.

Quem tem coragem de se assumir.

Seus defeitos, suas dores e dissabores.

Quem tem coragem de tirar as máscaras.

Reconhecer de onde veio.

E não sabe ao certo para onde vai.

Quero ver quem ama...

Apenas pelo fato de amor.

Sem ilusões de filtros, de status sociais.

Ama fora da rede, para além da posse.

Quem consegue está com alguém sem torna-lo um prêmio de conquista?

Um objeto, desejo vão.

Quem consegue transpor as crises?

Aceitar a bagunça que pode ser o outro.

Sem julgar o passado, sem controlar o presente sem temer o futuro.

Eu quero é ver.

Quem é bom de graça.

Sem se apoiar em religiões ou em códigos.
Civis ou criminais.

O amor de deus não cabe dentro de uma religião, dentro de livros.

Ele se materializa no ar, na terra, na água, na luz...
em um abraço.

Se existe o sagrado!
ele é a natureza.
É o ser com o outro e não sobre o outro.

Não servir, nem se curvar.

É olhar de igual.

Sem precisar pôr os joelhos no chão para livrar-te do pecado.

O pecado foi criado para separar mundos.

O paraíso e o inferno são cabrestos.

O Sagrado e o profano, o bem e o mal.

Tudo criado para educar pelo medo.

Tudo criado para nos dividir.

Delírios de superioridade.

E a gente só existe aqui.

Somos o agora.

Quero ver quem consegue viver de cara limpa, alma leve e peito aberto.

Quem consegue sair desse ciclo vicioso...
chamado sistema.

Dessa sede insaciável por poder.

Dinheiro!!

Quem se vende menos?

Quem súplica mais?

Eu quero ver.

A quem interessa vazio.

Quem luta por todos mesmo sem abrigo;

Quem beija os lábios mesmo sem fuder.

Eu quero ver.

Quem consegue olhar e gostar do que ver diante do espelho.

Quem põem a cabeça sobre o travesseiro e dorme tranquilo.

O sono dos justos, ou será, dos injustos?

Eu quero ver.

Antes que me ceguem.

Tais Medeiros.

15/05/2018

Somos orgasmos múltiplos, declarações de amor. [TEXTICULO 77]

Entre um baseado e outro nossos corpos relaxam. Entrego-me a cama e deixo esse mesmo corpo afundar entre os travesseiros. Às vezes a mente entra em paz, às vezes vejo girassóis no teto, girando para mim. Lembro-me porquê gosto tanto deles. Sua cor amarela representando a luz, a força e a áurea e seu fundo escuro me remete a escuridão dos seres. Estamos sempre radiantes para mundo, distribuindo sorrisos, ironias, força a imagem de senhores de si em uma plenitude inabalável. Vendemos está imagem. Queremos que acreditem, queremos acreditar que somos tão foda assim. Contudo lá no nosso interior, onde os raios de sol se perdem, vemos talvez nossa essência... Dor.

São tantas magoas, tantas feridas mal cicatrizadas que a gente apodrece e apodrece o outro. Os girassóis quando estão sem os raios de sol procuram em seus pares a luz que lhes faltam, nós ao contrário dele não trocamos energia, não cuidamos um do outro, não nos tornamos um campo que emana beleza e luz. Apenas sugamos da mente, do corpo da beleza do outro a fim de nos sentimos bem, superiores ao menos por alguns momentos. Satisfação instantânea.

Entre essas brisas melancólicas eu olho para ele, que subitamente se põem por cima de mim a acariciar meus cabelos. Raros esses nossos momentos também somos instantâneos, não somos girassóis. Desvio meu olhar, triste por não sermos exceção, somos a regra do mundo moderno do mundo em desapego. Ele me pergunta com a voz mansa.

- Está ai? O que se passa nesta cabeça em combustão?

- Seus olhos.


(Respondo.)

- Você e a brisa dos olhos...

Sempre falo de olhos, mas não são os formatos, não são as cores é o olhar. A forma que eles me olham, que fitam os meus que estão quase sempre tortos, quase sempre de ressaca. Já me olharam de tantas formas e (des)formas, alguns olhares chegaram a molhar minhas calcinhas, mas outros chegaram a me rasgar a pele tão fundo que até hoje sinto o cheiro de sangue. Meu sangue.

Mas confesso que olhar dele sempre me foi vazio. Seus olhos negros trazia a imagem de um grande buraco, mudo, sem sensações, sem vida. Tão normal que causava incomodo. Muitas vezes entre as viagens etílicas eu me via vagando nessa escuridão, solta no universo, desprendida, sem lugar para pisar. Entretanto nossas conversas eram boas, eu não precisava ter opinião sobre tudo, não precisava explicar teorias, não precisava ser inteligente e nem gostosa, não tinha que provar nada. Eu só precisava está ali, mesmo que minha mente se ausentasse por alguns instantes.

- E o que têm meus olhos?

(Perguntou ele.)

- Estão surpreendentemente cheios, parecem preenchidos.

Sim! Após um ano dividindo a cama, o copo e o cigarro, eu vi pela primeira vez em seus olhos um desejo voraz, uma vontade hipnotizante.Senti alma naquele corpo quente que começava a passear sobre mim. Quando o tesão se mostra no olhar o corpo ganha tônus e a vida ganha ritmo. Uma coisa é certa, tão certa quanto a morte - tudo precisa ser feito com tesão. Arrisco dizer que esse é o principal ingrediente da tal felicidade. As coisas feitas com tesão tende a dá mais certo, pois há uma entrega, uma fé e isso contagia e satisfaz. Não faça nada se houver tesão.

Eu me curvei aquele olhar preenchido de tesão, ao seu desejo. Seu rosto acaricia o meu, sua boca beija a minha, lábios secos que aos poucos vão se umedecendo. Sua língua passeia pelos meus ouvidos, pescoço, busto, abocanha meus seios pequenos, brancos de mamilos amarronzados, os engoles os lambuza. Morde minha barriga lentamente e com as mãos ligeiras aperta minhas coxas, encontra meu ser. Entre minhas pernas me dilata com seus dedos, esfrega-me, toca-me a fundo. Meu corpo se contrai, cai em desgraça suplicando que entre. Quase digo que te amo, abafo gemidos mordendo lenções. Sinto o mundo girar rápido e meu universo fica em silên(cio). Sinto o furor, o clitóris em frenesi. Será esse o verdadeiro primeiro som do universo? Imagens em desconexos se configuram em minha cabeça. Me vejo no meu feminino primitivo minando gozo, regando o mundo de amor.

Entre, por favor, entre.

Vejo girassóis em você, girassóis brotam por todo quarto, pelo meu corpo. Não possuo mais controle sobre mim. Você me controla me transforma, transfere para mim toda sua luz, toda sua energia. Somos campos férteis. Somos orgasmos múltiplos, declarações de amor. 

Tais Medeiros.




Acordo maré
Durmo cachoeira
Embaixo, sou doce
Em cima, salgada
Meu músculo musgo
Me enche de areia
E fico limpeza debaixo da água
Misturo sólidos com os meus líquidos
Dissolvo pranto com a minha baba
Quando 'tá seco, logo umedeço
Eu não obedeço porque sou molhada

19/02/2018

Sessão Poema - Parte LXXI [Seu suor; (meu) Minha saliva; (sua)... Vai!!! Me invade.]

Arte - Apollonia Saintclair


Vamos unir...
A seu fumo ao meu vinho;
O teu corpo ao meu.
Minha boca no seu pau;
Seu pau no meu íntimo.
E nos tornamos um.

Seu suor;
      (meu)
Minha saliva;
      (sua)

E a gente se enrosca, desenrosca.
Se perde entre os lenções, se acha no banho.

Vai!!!
Me invade.
Marcando-me por todas as partes.
Mistura-se a mim.
Sufoca-me enquanto me fode devagar.
Me encha de você.

Seus pelos;
Seu cheiro;
Seus olhos.
Ah! Esse olhar.

Me gruda em sua pele;
Em sua cama, nas paredes.
Por todo este aparamento.
Faz barulho para calar o barulho do mundo, da mente.

Me sente;
Me entende;
Me ama.

Beba-me em pequenos goles.
Mora em mim.
Que eu te deixo ficar...
Hoje, amanhã...
E talvez para sempre.

Tais Medeiros.